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Parem as máquinas! Rufem os tambores! E que soem as trombetas! Depois de uma interpretação pífia (similar a de um tronco de árvore) nos três filmes da série Matrix, eis que Keanu Reeves finalmente alcança sua redenção em Constantine. Sim, sim, exatamente: na transposição do personagem do selo adulto Vertigo, da editora de quadrinhos americana DC Comics, o ator salva a pátria num filme que tinha tudo para ser tão ruim quanto profetizavam os fiés fãs de HQs.
Tudo bem, é mesmo verdade que “Constantine”, enquanto adaptação de Hellblazer, não funciona. Mesmo. Além da insistência em transformar o personagem num herói de ação (principalmente nas cenas com aquela pavorosa “arma em forma de cruz que atira água benta”), muito da trama sofre do fenômeno do “politicamente correto” que recentemente assola a indústria do entretenimento americana: o bem e o mal (no caso, céu e inferno) são lados muito bem definidos, coisa difícil de acontecer na obra original. E, em dado momento, Constantine se revela um guerreiro do bem em busca de seu lugar ao lado do Criador – o que desvincula bastante a versão das telonas do sujeito desgraçadamente sacana das HQs.
Mas, como filme, num apanhado geral, “Constantine” é muito mais divertido do que coisas como Elektra ou mesmo o mediano Demolidor, ambas produções também baseadas em quadrinhos. E mesmo que, nos últimos 20 minutos da película, John Constantine se transforme numa espécie de super-herói a la Neo, fica claro que a culpa não é de Keanu Reeves, mas sim do roteiro. Afinal, desde o começo, é a canastrice do ator que faz deste “Constantine” uma produção interessante. Cheio de ótimas tiradas e frases interessantes, o Constantine de Reeves é rico também nos olhares e gestos, forçado na medida certa para arrancar risos em meio a tensão de uma cena. Embora não tanto como seu côngenere de papel, este Constantine também tem o seu lado maldoso e egoísta. E como fuma, o infeliz.
Dá até para dizer que quaisquer escorregadelas e rendições da história ao formato “herói bonzinho vencendo o vilão” podem ser perdoadas depois de um diálogo final de Constantine com o personagem vivido pelo excelente ator sueco Peter Stormare – mas que não podemos revelar quem é para não estragar a surpresa… Decepção mesmo foi a participação do cantor Gavin Rossdale, da banda Bush, como um demônio “mestiço” de nome Balthazar. Altamente dispensável.
Só para entender do que se trata a história: John Constantine (Reeves) é um homem amaldiçoado com um dom – ele consegue enxergar as criaturas sobrenaturais, seja oriundas do céu ou do inferno, que caminham pela Terra. Depois de uma tentativa de suicídio, ele acaba ganhando uma missão auto-imposta: mandar de volta aqueles que tentarem acabar com o equilíbrio proposto por Deus e pelo Diabo em sua aposta pelas almas da humanidade. No meio do caminho, o cara acaba se deparando com a morte misteriosa de Isabel (Rachel Weiss, de A Múmia e O Retorno da Múmia), irmã-gêmea da investigadora de polícia Angela Dodson (Weiss). E também com uma estranha descoberta numa escavação lá no México…
Talvez ainda não seja a adaptação merecida das obras do britânico Alan Moore, que já foi submetido aos decepcionantes Do Inferno (com Johnny Deep) e Liga Extraordinária (com Sean Connery). Mas, mesmo assim, vale pela oportunidade única de perceber que, afinal de contas, os dotes artísticos de Keanu Reeves ultrapassam os de Vin Diesel. Ou os do meu dedão.
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