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Os fãs de quadrinhos concordam: a adaptação para as telonas do herói cego Demolidor poderia ter sido muito melhor se a transposição da sensual ninja Elektra tivesse sido mais fiel. Ao invés de uma assassina sanguinária e misteriosa, a personagem vivida por Jennifer Garner é uma filhinha de papai frágil e chorona – e que se transforma numa guerreira num estalar de dedos. Assim sendo, o anúncio de um filme solo estrelado pela personagem poderia ser um bálsamo para os leitores: sem a interferência direta do fraquíssimo diretor Mark Steven Johnson, o razoável Rob Bowman (de Reino de Fogo) teria a oportunidade ideal para exercer sua criatividade. Mas… não, não é isso que acontece. E lá vamos nós de novo.
Antes de mais nada, sem exageros do tipo “Elektra vai ser a Mulher-Gato de 2005″. Definitivamente, é impossível superar a vergonhosa performance de Halle Berry. Mas, mesmo assim, “Elektra” não consegue ser mais do que um filme bobo, quase infantil, facilmente esquecido durante aquela tradicional pizza depois do cinema.
Sim, a trama tem seus momentos divertidos e algumas sequências interessantes, que chegam a inspirar esperança de que as coisas vão melhorar dali pra frente. Os 15 primeiros minutos, por exemplo, lembram bastante o material escrito recentemente pelo argumentista Greg Rucka – que, por si só, já não é nenhuma unanimidade entre os fãs das HQs. Mas, pelo menos, vemos flashes da Elektra mercenária e desalmada que apavora os vilões dos gibis com um tantinho de humor negro. A coisa toda começa a degringolar quando somos apresentados ao bonitão Mark Miller (Goran Visnjic, da série de tv Plantão Médico) e sua filha rebelde Abby (Kirsten Prout).
Na história, Elektra (novamente vivida pela bela Jennifer Garner) volta à vida depois de seu trágico destino no final de “Demolidor”. Treinada pelo mestre Stick (o ótimo Terence Stamp), ela acaba saindo do “caminho da luz” e se transforma numa assassina de aluguel. Tudo vai indo bem neste novo “negócio” até que a moça se depara com seu novo alvo: Miller (sim, você adivinhou bem). Quando Elektra começa a enxergar em Abby um retrato de si mesma quando era criança, concluir o trabalho se torna impossível. E a partir daí, a personagem fica completamente irreconhecível e o diretor se perde num mar de clichês de filmes de aventura. Elektra ganha até estranhos poderes de previsão do futuro para combater o mal!!!
O “mal”, no caso”, é um clã oriental chamado Tentáculo (que, nos quadrinhos, foram os reais responsáveis pela ressureição de Elektra e também seus empregadores durante muito tempo), que envia um quinteto de guerreiros com superpoderes para caçar Miller e sua filhota. Todos altamente dispensáveis e sem graça, do líder Kirigi (Will Yun Lee) à sensual Typhoid Mary (Natassia Malthe, que se parece mais com a Elektra do que a própria Garner). Por falar nesta última, não faz o menor sentido terem migrado uma das bandidonas mais interessantes das histórias do Demolidor para o filme da Elektra se ela tem pouco mais de meia-hora em cena!
Para quem esperava encontrar nas telonas aquela assassina dos quadrinhos clássicos de Frank Miller, o filme é ainda muito mais decepcionante. A Elektra de Jennifer Garner continua chorando como uma Madalena, faz piadas e fica “amiguinha” da garota pentelha, tem pesadelos e se encolhe de medo na cama e ainda se apaixona pelo bonitão da história. E o Stick é só uma sombra do personagem poderoso e cativante que treinou tanto a Elektra quanto o Demolidor. Aliás, se ele não apareceu no outro filme, por que diabos resolveram colocá-lo na trama agora?
Resumindo: se você queria uma matadora implacável e sangue para todos os lados, tinha que rezar para ver o Quentin Tarantino na cadeira de diretor.
Agora… e para quem não é fã de quadrinhos? Funciona? Ignorando o fato de que Elektra veio do mundo dos gibis, será que dá para ver o filme? Olha… até dá. Se a sua única preocupação forem os figurinos sensuais e os biquinhos da protagonista – que, por sinal, rebola o tempo todo e sofre do mesmo desvio na coluna que a Mulher-Gato de Berry.
Juro que “Elektra” só reforça uma das minhas maiores dúvidas com relação aos produtores de Hollywood. Com um elenco tão vasto de personagens que dariam um filme leve e divertido para o público teenager que eles querem atingir, por que eles resolveram escolher justamente a Elektra entre tantos heróis da Marvel? Para, depois de pagar os direitos de filmagem, concluir que ela era adulta e violenta demais para este público e ter que modificá-la completamente? Dá um tempo! O mesmo vale para o Constantine: podiam ter feito um filme de aventura com o Lanterna Verde. Ou com o Flash. Mas não. Tinham que colocar na cabeça que o Constantine seria uma boa escolha. Pra quê? Pro cara virar americano e politicamente correto, sendo bombardeado pelos fãs. Não dá pra entender porque esta gente gosta de complicar a própria vida…
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