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Artigo adicionado em 22/10/2002, às 03:22

A TRISTE SINA DO AZULÃO
Como se não bastasse o uniforme ridículo, o Super-Homem ainda tem que penar nas mãos dos roteiristas Clark Kent, também conhecido pela alcunha de Super-Homem Tá legal, os que tiveram a paciência de esperar vão saber do que estou falando. Antes de mais nada, todos aqueles que me conhecem sabem que nunca fiz questão de […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

Lois, pode me esperar de baby doll que hoje chego em ponto de bala!

Clark Kent, também conhecido pela alcunha de Super-Homem

Tá legal, os que tiveram a paciência de esperar vão saber do que estou falando. Antes de mais nada, todos aqueles que me conhecem sabem que nunca fiz questão de esconder que detesto o Super-Homem (ou "Superman", como dizem os americanóides). No entanto, nem eu mesmo tinha lá muita certeza do que porquê desta raiva, aparentemente gratuita. Foi quando descobrir o que me incomoda no seu universo: os roteiros.

Aliás, me incomoda bastante o fato de que grande parte dos roteiristas que já passaram pelos títulos do escoteiro azulão simplesmente omite um fato que, nas histórias de Jerry Siegel e Joe Shuster (os criadores do personagem), era evidente: ELE É UM ALIENÍGENA! Pode parecer óbvio pra você, que sabe a já manjada origem do herói, o "último filho de Krypton"? Pois não é o que me parece, tendo em mãos um gibi do alter-ego de Clark Kent.

Acompanhe meu raciocínio: se ele veio de um outro planeta, é sinal que sua fisiologia é diferente da nossa, não? Exatamente por isso ele acabou ganhando seus super (e que super) poderes, exposto ao nosso Sol amarelo. Até aí, tudo bem. No entanto, daí pra frente, mal se ouve falar sobre o fato do Super ser um ET (porque no fim das contas, é isso que ele é). O cara é tratado como o ser humano mais poderoso do Planeta Terra, e só fica gozando dos benefícios de ser mais rápido do que uma bala ou poder pular um arranha-céus.

Em nenhum outro aspecto o organismo dele difere do nosso? Será que ele não criaria bolinhas amarelas no pescoço quando comesse pizza de pepperoni, por exemplo? Ou entraria num casulo de desenvolvimento na primeira vez que fizesse sexo com a gloriosa Lois Lane, saindo três meses depois na forma de uma mariposa com três orifícios anais? Eu não sei, e nem ele sabe, porque grande parte dos registros sobre sua civilização foram simplesmente destruídos numa enorme explosão planetária!

A coisa é tratada de maneira muito superficial, convenientemente esquecida para que roteiristas meia-boca não tenham que se preocupar em explicar algo assim. Será que as crianças de Metrópolis não teriam medo do Super-Homem se ficasse claro para elas que ele é um alien, apesar de sua aparência humanóide? Tão alien aqueles babões que a Sigourney Weaver metralhava??? Será que ele mesmo não se sente um tanto deslocado, às vezes – é, por que não explorar o maldito lado psicológico da coisa, caramba? Se sentindo perdido num mundo que o acolheu e do qual ele é o maior defensor…MAS QUE NÃO É O SEU? Isso acontece, pombas! Afinal, nem os ETs são perfeitos.

Perfeição: outra coisa que me irrita demais no Grande S. Tudo na vida dele é tão simples, porque ele é a perfeição em pessoa. Não tem dúvidas. Mais do que isso: não tem adversários, porque é a criatura mais poderosa da Terra! Meu, imagina a responsabilidade!!! Isso não gera dúvidas, ansiedade? Você saber que é o ser que mais tem poder em todo o planeta para ajudar os que necessitam, ainda assim, não conseguir fazer o suficiente? Será que ele não tem medo de exagerar? De se descontrolar num momento de fúria e aplicar toda a sua força nas fuças de um marginalzinho de rua, explodindo o crânio do cara? (prêmio drama do ano vai para…El Cid!)

Depois de suas histórias, é o Super que vai pro espaço

O Azulão na clássica Era de Prata

Na real: se alguém com um mínimo de conhecimento de narrativa pegasse o personagem em mãos, faria um trabalho ducaralho, digno de se tornar título da Vertigo. Sério mesmo! Ia ser tão divertido quanto inteligente. Exatamente como o Batman -este sim, um dos meus personagens preferidos. Pensemos: o Morcegão é o máximo da perfeição a que um ser humano pode chegar, física e intelectualmente. No entanto, todo mundo sabe que o cara é completamente pinel: cheio de problemas psicológicos, traumas e inseguranças. Muitas vezes, ele perde o controle e coitado de quem estiver no meio do caminho. Ou seja: ele não é tão perfeito assim, e é isso que faz do personagem, seja ele de quadrinhos, cinema, teatro ou seriados tipo "Friends", uma criatura tridimensional, possível de existir.

Totalmente bidimensional, este Super-Homem acaba se tornando nada além de CHATO. (Ahá, I got my point!!!!) Que me perdoe o genial Jeph Loeb, responsável pelos atuais roteiros do Super, mas nem ele, autor de um clássico "O Último Dia das Bruxas", foi capaz de fugir da síndrome de chatice que abate os super-títulos.

Atentem para uma belíssima exceção: o Super-Homem de Mark Waid, em "Reino do Amanhã" (Kingdom Come). Este sim, posso dizer que é um Super-Homem de respeito. Ele fica o tempo todo se remoendo e se contestando sobre seu papel no mundo, sobre como pode fazer uso de seus enormes poderes… tudo por causa do trauma da morte de Lois Lane, que nem sendo tão super ele conseguiu evitar. Todo o tempo ele lembra de sua origem extra-terrestre, por mais que considere o planeta Terra seu verdadeiro lar. Vale lembrar também este Kal-El é ainda mais foderoso do que o atual, porque já absorveu tanta energia solar que está invulnerável à kryptonita. Algumas vezes ele fica tão puto da vida que se descontrola, e chega a assustar, mostrando-se cada vez mais alienígena do que sua aparência revela.

Aliás, parece que o Mark Waid tem talento para tornar mais palpáveis (no bom sentido) heróis fantasiados sem qualquer profundidade, como o Super e um certo capitão vestido de bandeira… nem vou comentar…

Pro alto e avante (já dizia meu avô tomando Viagra) – elcid@a-arca.com


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