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Artigo adicionado em 12/11/2004, às 01:19

Crítica: MÁ EDUCAÇÃO
Almodóvar com muito mais pimenta! Por algum motivo, parte do público brasileiro transferiu para o cineasta espanhol Pedro Almodóvar o ódio adquirido (injustamente, aliás) por Roberto Begnini depois que a A Vida é Bela roubou o Oscar de melhor filme estrangeiro de Central do Brasil. Virou uma espécie de “aversão aos vencedores do Oscar de […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim


Por algum motivo, parte do público brasileiro transferiu para o cineasta espanhol Pedro Almodóvar o ódio adquirido (injustamente, aliás) por Roberto Begnini depois que a A Vida é Bela roubou o Oscar de melhor filme estrangeiro de Central do Brasil. Virou uma espécie de “aversão aos vencedores do Oscar de melhor filme estrangeiro e que não sejam brasileiros”.

Se já era difícil fazer o público tupiniquim ir aos cinemas para ver algo que não fosse americano, agora tornou-se praticamente impossível. “Ah, é europeu? Deve ser chato!”, grita a maioria. Uma pena. Porque, sem sombra de dúvidas, Almodóvar é um dos melhores diretores em atividade atualmente. Seu trabalho é completamente acessível para as massas, diferente de algumas coisas vindas do Irã ou da França, por exemplo.

Com Má Educação, Almodóvar faz um filme completamente diferente de suas obras mais recentes. Esqueça a delicadeza e suavidade de Fale com Ela ou Tudo Sobre Minha Mãe – que é igualmente auto-biográfico, por sinal. “Má Educação”, um filme muito mais sombrio e rancoroso, é cheio de personagens imorais, inconstantes, cheios de defeitos e pequenas vinganças, totalmente humanos como eu e você.

Depois de alguns anos desaparecido, o jovem Ignacio Rodríguez (Gael García Bernal) procura seu velho amigo de escola Enrique Goded (Fele Martínez), agora diretor de cinema, pedindo um emprego como ator. Na mala, ele traz um roteiro chamado “A Visita” – que mistura ficção ao passado dos dois na escola de padres onde estudaram, foram abusados pelo temível Padre Manolo (Daniel Giménez Cacho)… e se apaixonaram. Enrique resolve fazer um filme sobre esta história, mas Ignacio (que usa o nome artístico de Angel Andrade) afirma que ele mesmo deve ser o ator principal. Então…

Mas… não, não. Pára tudo. Este breve resumo da história é muito pouco. Usando e abusando da metalinguagem e brincando com o filme dentro do filme, Almodóvar vai desdobrando pequenas sub-tramas que tornam a história muito maior e mais interessante do que isso, cheia de surpresas e viradas inesperadas e inteligentes. Mas, se eu me arriscar a contar mais algum detalhe, posso estar estragando a surpresa de vocês.

Depois do emocionante Che Guevara de Diários da Motocicleta, o mexicano Gael García Bernal prova que anda fazendo muito bem a lição de casa e rouba a cena numa interpretação brilhante – se rendendo à excelente direção de atores do Almodóvar, que conseguia fazer até o Antonio Banderas provar que merece ser chamado de “ator”. Esqueça aquela bisonha aparição do Rodrigo Santoro vestido de travesti em Carandiru. A chiquérrima Zahara de Gael é tuuuuuuuuuuuuuuuuuuudo, feminina sem parecer forçada, sem soar como um arremedo ou sátira.

Se você é do tipo que se impressiona fácil… ou então é daqueles homofóbicos metidos a machão… “Má Educação” não é para você. Melhor alugar um dos filmes mais recentes do Schwarzenegger, que são um amontoado de testosterona sem miolos. “Má Educação” não tem heróis ou vilões. Porque, afinal de contas, todo ser humano é meio filho-da-puta em algum momento da vida. Até a Madre Teresa de Calcutá ou o Gandhi.

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