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Tudo bem, eu admito: por mais que eu ainda prefira o Hal Jordan envergando o anel de Lanterna Verde, o nosso simpático Kyle Rainer se encaixou como uma luva no papel. Talvez seja porque ele também é um personagem interessante, cheio de nuances: quase um adolescente tentando entender que é hora de crescer, assumir responsabilidades e parar de se esconder em seu mundo de quadrinhos (não te lembra alguém?). Mas o mesmo não vale para o substituto que a DC tentou arrumar para assumir o manto de Arqueiro Verde no lugar de Oliver Queen. O filho do hômi, Connor Hawke, não tem a mesma graça, o mesmo carisma, a mesma tridimensionalidade do papai famoso. Se tocando da cagada que cometera, a editora resolveu chamar ninguém menos que Kevin Smith (aplausos aqui) para trazer Queen de volta do mundo dos mortos.
Se você se diz fã de quadrinhos, com certeza deve conhecer Kevin Smith. Saído diretamente do cinema, onde dirigiu clássicos do mundo nerd como "O Balconista" (Clerks), "Dogma" (Idem) e o inesquecível "Barrados no Shopping" (Mallrats), o cara começou a se aventurar no mundo dos quadrinhos com as transposições de seus personagens (especialmente a dupla Jay & Silent Bob) das telas para os gibis. Logo o cara acabou na Marvel, onde fez um trabalho excelente com o Demolidor, num arco de histórias envolvente e, antes de tudo, surpreendente…que o John Byrne fez questão de cagar (Maiores detalhes? Mandem e-mails se vocês não se importam com spoilers).
Em "Quiver", arco de histórias em dez partes que relançou a revista "Green Arrow" nos EUA e que chega ao Brasil em uma mini-série pela Panini Comics, Smith se deparou com uma tarefa complicada: como diabos trazer de volta um personagem sem parecer tão estúpido quanto a Marvel naqueles tempos que fazemos questão de esquecer? E não é que o cara conseguiu? 🙂
A história é a seguinte: em Star City, a cidade natal de Oliver Queen, o milionário excêntrico Stanley Dover é salvo de um assalto por um mendigo desmiolado usando uma espécie de arco improvisado, feito de canos e garrafas plásticas. Eis que ele descobre que se trata de ninguém menos que o Arqueiro Verde, o maior defensor que Star City já teve. Mas…espera um pouco. O Arqueiro morreu numa explosão há alguns anos, tentando desmontar uma bomba em um avião, em missão ao lado do Super-Homem. E, ainda assim, ele já tinha se mudado de Star City para Boston há cerca de dez anos!!!
Mas, de qualquer maneira, era ele mesmo. Ninguém teria aquela habilidade simplesmente sobrenatural com as flechas, aquela mira… Eis que Dover começa a patrocinar o retorno do vigilante mascarado (que, lembre-se, outrora tinha sido um milionário exatamente como Bruce Wayne), cedendo-lhe uma espécie de QG e todas as bugigangas que ele precisaria – incluindo a flecha com uma luva de boxe na ponta!!!! Era óbvio que este retorno não passaria em branco – ou você acha que um sujeito todo vestido de verde combatendo o crime nas ruas com arco e flecha ia passar anônimo? A notícia correu rápido, atraindo a atenção de seus velhos companheiros, incluindo o Ricardito (Speedy, seu antigo sidekick), a galera da Liga da Justiça…e Dinah Lance, a Canário Negro, o grande amor de sua vida.
No entanto, fica claro que este Oliver Queen tem uma característica especial: ele não tem nenhuma lembrança dos últimos dez anos! Isso mesmo, ele se comporta como um sujeito parado no tempo, no começo dos anos 80 – tem que ver a reação dele ao se deparar com um telefone celular ou um iMac. Para ele, portanto, nada daquilo aconteceu – ele nunca chegou a morrer, a tal explosão não ocorreu e ele jamais saiu de Star City. Confuso? Pode se preparar para mais!
:: Ele sabe o que faz!
E sabe mesmo. Como sempre, os diálogos de Smith estão impecáveis: rápidos, ácidos, divertidos. O timing da história flui muito bem, cada coisa acontece a seu tempo, sem pressa. Você fica aguardando ansioso pelo próximo número. E, como sempre, Smith fez a lição de casa muito bem: consultando fãs do personagem pela internet e relendo uma série de números antigos da revista, o autor faz as referências certas, sem deixar buracos na cronologia com a qual o leitor mais atento se preocuparia imediatamente. Seu Oliver Queen é deliciosamente mal-humorado, machista, grosseirão e muito divertido, cheio de discursos pseudo-comunistas.
A explicação acerca do retorno de Queen pode parecer um pouco fantasiosa, um pouco forçada demais, talvez até meio complicada de entender. Mas ela faz todo o sentido quando se entende um pouco mais como funciona a dinâmica da amizade entre o Arqueiro Verde e o primeiro Lanterna Verde, Hal Jordan. Se eu der maiores detalhes, com certeza vou estragar boa parte da surpresa.
As participações especiais são, sem sombra de dúvida, o principal tempero deste arco de histórias. Batman acaba se tornando um elemento pivotal na trama, e sua relação com o Arqueiro rende boas risadas, enquanto a dupla disputa para descobrir quem é o mais cabeça-dura. O encontro do nosso herói esmeralda com o Aquaman parece uma reunião de velhos amigos num bar – "Puxa, eu gostava daquela camisa laranja, ela combinava com você".
Destaque especial para a visita do Arqueiro à base da Liga da Justiça, quando ele reencontra amigos como a Mulher-Maravilha, Ajax e o Super-Homem e ainda dá de cara com o Wally West (de quem ele se lembra como Kid Flash) no uniforme do Flash – "Ah, garoto, o que você está fazendo com a roupa do Barry?". Do humor, Smith pula direto para um dos momentos mais tensos da saga, quando Queen se depara com Kyle Rainer e descobre que Hal Jordan está morto.
Pois é… depois de tudo isso, a expectativa pela nova série da Gata Negra (aquela personagem secundária do Homem-Aranha) que ele está escrevendo para a Marvel fica ainda maior. Tomara que o nerdmaster também acerte a mão com ela… especialmente porque o Cabeça-de-Teia deve ser um convidado especial muito frequente no gibi – afinal, não é que o Smith vai escrever o gibi do cara no ano que vem? :-))))
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