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Tão aguardada quanto comentada, tão esperada quanto criticada. "Em um clássico como este não se mexe – imagine fazer uma continuação de ‘Cidadão Kane’, por exemplo", diziam alguns críticos (eu me incluo). O fato é que finalmente chega ao Brasil a primeira edição de "O Cavaleiro das Trevas 2" (The Dark Knight Strikes Again, chamada carinhosamente pelos gringos de DK2), a sequência da aplaudida mini-série de Frank Miller e Lynn Varley, de 86. Com o primeiro "Cavaleiro das Trevas", Miller mudou para sempre a forma como os roteiristas vindouros passaram a enxergar os quadrinhos de super-heróis. Com este "Cavaleiro das Trevas 2", é muito provável que ele não consiga repetir o feito…mas realmente seria ótimo se o fizesse.
Antes de tudo, um aviso aos leitores mais jovens: esta é uma continuação DIRETA de "O Cavaleiro das Trevas", série lançada, repito, em 1986. Significa que muitas das alterações significativas da cronologia da DC Comics não têm efeito nesta história. É o caso, por exemplo, da morte de Barry Allen (em Crise nas Infinitas Terras) e da transformação de Hal Jordan em Parallax (e sua subsequente substituição por Kyle Rainer).
DK2 (tá aí, gostei, mais simples e mais fácil) é um verdadeiro ode aos heróis da velha guarda. Na figura de um Jimmy Olsen envelhecido (que, no entanto, veste a mesma gravatinha borboleta das aventuras do Super dos anos 50), Frank Miller lembra de uma época na qual "homens e mulheres com dons extraordinários (…) desafiavam a tirania, derrotando-a a todo momento. (…) Onde estão nossos heróis?". Em plena década de 90, a pergunta de Olsen vem bem a calhar: os heróis de hoje são super-fortes, musculosos até as gengivas, ultra-violentos, alguns até mais perigosos que os vilões que enfrentam. Esta é a principal metáfora do autor – o que aconteceu com os heróis de outrora? A história se passa três anos depois da suposta morte de Batman ao final de "Cavaleiro das Trevas". Escondido nas sombras, ele treinou sua aprendiz, Carrie Kelly, e os remanescentes das gangues que ele mesmo derrotou. E formou um exército. O mundo decaiu numa paz e harmonia forjadas por um estado ditatorial, regido a mão de ferro por homens inescrupulosos como Lex Luthor. Bruce Wayne sabe que esta sociedade perfeita é falsa. E vai voltar para libertar o mundo.
No entanto, o maior dos heróis, o Super-Homem, ainda trabalha para o governo. E o conflito ideológico entre ele e o Homem-Morcego fica cada vez mais evidente. Descobrimos que a Mulher-Maravilha e o Capitão Marvel, outros dois semi-deuses, também estão sob o jugo dos poderosos, fazendo seu jogo, com medo de desafiá-los e ferir mais inocentes. Mas Batman não tem medo. E sabe que vai precisar de ajuda. Para isso, ele vai libertar e buscar a ajuda de antigos aliados: o Átomo (Ray Palmer), o Flash (Barry Allen) e o Arqueiro Verde (Oliver Queen, agora com um braço biônico, já que na primeira série ele surge sem o braço esquerdo, culpando o Super-Homem pela perda).
Destaque para a aparição do Questão, personagem cujas caixas de texto são todas datilografadas como máquina de escrever, já que o próprio afirma que "não se pode confiar em computadores". Detalhe: embora seja uma delícia ver a visão que Miller tem do futuro decadente dos heróis mais clássicos da DC, creio que aí está seu maior erro em termos de argumento – tentar mostrar todos eles de uma só vez. Acho que esta tarefa deveria ter levado mais tempo, nem que para isso a série devesse ser em quatro edições, não em três. Em alguns momentos, parece que ele está nos sobrecarregando de caras em uniformes colantes.
Fora isso, o roteiro é realmente um tesão. Tem um ritmo legal, tem um timing até que bem balanceado…e tem a velha e boa subversão inaugurada no primeiro "Cavaleiro das Trevas". Isso é o que esta continuação tem de melhor. Batman é um agente do caos, que quer tirar o mundo desta apatia, da aparente sensação de que tudo está perfeito. Ele é o milionário que quer fazer a classe média burra e burguesa acordar para a realidade do planeta, na qual os líderes das nações mais poderosas varrem os problemas e a pobreza pra debaixo do tapete. Não te lembra nada? Talvez uma ditadura militar que se abateu durante muito tempo na cabeça de um país chamado…Brasil? Ou você acha que a euforia pela conquista da Copa de 70 era puro patriotismo? Era sim um patriotismo cego, patrocinado para que o povo olhasse para o outro lado e não visse os pensadores sendo torturados nos porões. Neste sentido, devemos ler não só DK2 como toda a obra de Miller sorvendo cada gota desta anarquia. Quem sabe a gente aprende como mudar as coisas (ou pelo menos começar).
TUDO BEM, TUDO LEGAL, MAS…
…não dá pra negar que o ponto fraco da série é mesmo a arte. Nisso o Frank Miller cagou feio. Quem conhece o trabalho do cara, sabe que o traço dele nunca foi dos mais acadêmicos, vá lá. Mas aqui ele exagera. Em alguns momentos, o narigudo comete erros boçais de anatomia – se ele fosse um sujeito non-sense e experimental como o Bill Sienkiewicz (Elektra Assassina), dava pra entender. Mas ele nunca foi. Juro que não esperava ver os desenhos dele assim. Os originais em preto e branco estão excelentes, muitos deles usando o esquema de luz e sombra de "Sin City", série de Miller na Dark Horse Comics. Basta dar uma olhada na nossa galeria de imagens. Aliás, por falar em cor…este sim é o calcanhar de Aquiles deste DK2. Se Miller tivesse optado pelo P&B, ou mesmo pelo colorido aquarelado da primeira série, muitos dos erros de seu traço seriam perdoáveis – como foram no primeiro "Cavaleiro das Trevas".
Mas a Lynn Varley, esposa de Frank Miller, tinha que aprender a mexer em computadores…Aí é que a casa caiu. Ela usa e abusa de todos os plug-ins mais básicos (e toscos) do Photoshop, o que deixa a arte de Miller, que já não está em seus melhores momentos, muito colorida e modernosa…o que não combina em absoluto com o clima do Batman. Ela alica efeitos de computador em momentos completamente desnecessários, e a coisa começa a se tornar irritante. Tio Miller: convence a patroa a usar nanquim ou aquarela de novo, por favor… Até uma pinturazinha em guache já ajudava…
CONCLUINDO…
…verdade seja dita: fica um enorme gostinho de saudades no ar. Saudades da primeira série de Miller, um verdadeiro divisor de águas no mundo dos gibis. E por mais que se diga que a comparação da continuação com o original é prejudicial e injusta, neste caso é inevitável: a primeira série é infinitamente superior. E ponto final. Tudo bem, nós só tivemos em mãos o primeiro número de DK2. Mas para quem leu o primeiro "Cavaleiro das Trevas", o final do primeiro número significava uma sede sem tamanho pela segunda edição. "Eu quero mais!", gritavam os fãs. Se você não leu, experimente: a Abril vai lançar, em março, a série original condensada em duas edições. Ao final do primeiro número, você vai sentir a diferença. E como vai. De qualquer maneira, DK2 é um excelente material para quem curte quadrinhos de super-heróis, muito acima da média do que temos visto por aí. Embora os fãs mais hardcore do narigudo Frank Miller saibam que ele poderia fazer muito melhor…
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