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Artigo adicionado em 16/10/2002, às 09:57

UM NARIGUDO BOM DE PENA
Conheça um tantinho sobre a criativa carreira do roteirista e desenhista americano Frank Miller O bem-dotado Frank Miller (aos de mente mais suja, entendam como bem quiserem) LEIA MAIS: :: Crítica: Sin City – A Cidade do Pecado :: Sin City – O Filme: curiosidades sobre a produção :: Conheça as grandes cidades das HQs […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

É impressão minha ou todo grande gênio é feio pra cacete?

O bem-dotado Frank Miller (aos de mente mais suja, entendam como bem quiserem)

LEIA MAIS:
:: Crítica:
Sin City – A Cidade do Pecado
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O cara mistura elementos de terror bem ao estilo Alan Moore, mas também é competente ao nos contar histórias viajadas e oníricas, ao estilão do Neil Gaiman. Só que a especialidade dele é mesmo falar sobre dramas urbanos, sobre os conflitos de uma cidade grande. Estou falando do narigudo biruta (olha a napa do cidadão!), Frank Miller!

O único americano (que além de roteirizar, também desenha) da Tríade (formada por ele, Moore e Gaiman), Miller sempre aprontou das suas, escrevendo aqui e ali mas sem o devido destaque que merecia. Até que a Marvel deu nas mãos do cara a responsabilidade de salvar um título que já tava na mesma rota do Fluminense, indo pro buraco: Demolidor (Daredevil). Quem lê gibis hoje em dia pode achar estranho que um personagem tão legal como o Demolidor tenha passado por uma fase tão ruim… Mas o diabinho cego só é o que é hoje por causa do titio Miller. O ladrão de oxigênio incorporou mais ainda o Demolidor ao ambiente urbano: às pequenas lutas e conflitos que fazem o pesadelo urbano que a gente vê nos noticiários. Miller fez do Sr.Murdock um combatente do crime, um lutador, mais preso do que nunca àquela maldita Cozinha do Inferno. Inteligência e ação rolando ao mesmo tempo!

Saudades daqueles tempos, né?

Apesar de dar umas rabiscadas como artista do Demolidor, Miller ainda não tinha o traço refinado de hoje em dia. E a melhor fase do cegueta foi quando Miller fez dupla com o competente desenhista David Mazzucchelli, criando a sensacional saga ‘A Queda de Murdock’. Comprei a série compilada num sebo destes perdidos nas esquinas (paguei R$ 0,50!), e delirei: o Rei do Crime descobre a identidade do Demolidor, e detona toda a vida do cara! Tira seus amigos, seu emprego, seu dinheiro, sua casa, seu amor, sua dignidade… E coloca o ruivinho no fundo do poço! A partir daí, o Demolidor resolve dar uma virada, e começa a voltar para se vingar do gordão! Caraca, com certeza, é uma das melhores histórias do Demolidor que eu já li! Mas tem uma outra que também é inesquecível, e que foi o trabalho mais recente de Miller dentro da Marvel: Demolidor – o Homem sem Medo! Numa dobradinha com o sensacional Jonh Romita Jr. (que eu adoro!), o big napa nos conta um pouco do passado de Matt Murdock, nos revelando como era sua relação com o pai, o lutador de boxe Jack Murdock. Esta é recente, você acha fácil, não tem o que chiar!

Ao mesmo tempo que dava uma reanimada no Demolidor, Miller lançava uma mini-série que virou ponto de referência para a utilização dos mangás nos quadrinhos americanos: Ronin, mistura de ficção científica com samurais. Usando e abusando de técnicas de narrativa dos mestres do quadrinho japonês como Kazuo Koike e Goseki Kojima, Miller criou um estilo misto de arte, misturando a maravilhosa movimentação dos quadrinhos japoneses com os desenhos fortes do quadrinho tipicamente americano. Aqui, a gente vê a história do jovem telecinético Billy Challas, que não tem nem os braços e nem as pernas. Numa Nova Iorque do século 21, Billy vive entre a realidade dura e a fantasia, na qual ele é um samurai renegado (ronin) do Japão Feudal. Sem saber o que é ou não real, Billy, se joga de cabeça numa luta para se libertar do computador Virgo, que parece o Hal de "2001 – Uma Odisséia no Espaço". Uma enorme viagem de Miller, que deixa a gente confuso pra cacete – e completamente maravilhado!

Mas a dobradinha de sucesso de Miller foi, com certeza, com o arte-finalista e colorista Klaus Janson. Com ele, o Pinóquio dos quadrinhos criou o delirante Batman: Ano Um, contando um pedaço da história do Morcego logo depois que encarnou o manto de Batman. Mas com toda a certeza o trabalho mais marcante de Miller é minissérie que, ao lado de Watchmen, mostrou para o mundo que os quadrinhos podem ser adultos e bem próximos da literatura culta (você sabe do que eu estou falando): Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns). Com esta fantástica história do retorno de um Batman cinquentão numa Gotham City dominada por bárbaros violentos, Miller mostra que é um especialista ao escrever as histórias do Morcegão.

Ainda prefiro "A Piada Mortal"

O Morcegão e a jovem Robin na primeira edição de "O Cavaleiro das Trevas"

Ao praticamente batizar Batman como o Cavaleiro das Trevas, Miller criou um personagem forte e poderoso, que se desvinculou de vez daquela imagem que o seriado de Adam West deixou do Morcego. E a minisérie foi matéria do Estadão, da revista Rolling Stone, e ganhou uma porrada de prêmios de quadrinhos e de design. A Gotham City criada pelo narigudo se transformou em ponto de referência, influenciando até no design da Detroit de Robocop. Por sinal, Miller alçou um prestígio tão grande que foi convidado para ser roteirista de Robocop II e Robocop III ! A partir daqui, o autor passa a ser mais importante que o personagem, e os gibis passaram a investir mais em qualidade de papel e de impressão.

A partir daí, o titio Frank detonou geral, se envolvendo num série de projetos de sucesso: a maravilhosa minisérie Elektra Assassina (Elektra Assassin) com desenhos surrealistas de Bill Sienkiewicz, onde ele conta a história definitiva da ninja assassina, numa narrativa viajante e totalmente alucinante. Elektra luta contra o Tentáculo, se envolve numa conspiração mundial, luta contra a SHIELD e escapa várias vezes da morte. Quem leu esta minissérie, fica é muito puto com a baita sacanagem que fizeram com a garota durante as histórias atuais dela, nas quais o roteirista diz que tudo que aconteceu na minisérie do Miller era mentira! Que merda, hein? Fiquei é irado, isso sim! Nem os desenhos do Deodato salvam esta nova fase da garota! Miller ainda volta com a colorista Lyyn Varley no especial Elektra Vive (Elektra Lives Again), falando da morte e ressureição da ninja. Quem já leu Miller, fica puto quando a Marvel apronta estas!

Com o mestre Dave Gibbons (Watchmen), Miller mandou ver em Give Me Liberty e em Martha Washington Goes To War, onde uma guerreira patriota deixa sua luta pelo país subir a cabeça (a mulher de metranca em punho é o bicho!). Com o competente Geof Darrow, o Cyrano dos comics detonou em Hard Boiled e The Big Guy and Rusty, the Boy Robot. Este último é do caraio, juntando um menininho voador e seu enorme robô para combater uma invasão de monstros a Tóquio. Uma tiração de sarro e ao mesmo tempo uma homenagem aos clássicos japoneses que conhecemos bem, em especial a série live action O Robô Gigante (The Giant Robot) e Astro Boy, do falecido Tezuka Osamu.

Deu pra sacar que o sujeito não pára, né? Ele nunca deixou o mercado americano dominá-lo – ao contrário, foi ele quem dominou o mercado americano. Dos três mestres da Tríade, Miller é o que está em atividade mais frequente. O cidadão tem até um título mensal que sai pela Dark Horse, o fabuloso Sin City. Miller retorna às narrativas urbanas, falando de uma cidade do pecado, dominada por uma família tradicionalista que esconde uma porrada de ossos no armário. Mesquinha, pequena, cheia de pequenas sujeiras e com uma enorme conspiração por trás de tudo, Basin City é conhecida por ser um antro de bares de prostitutas, que são a principal fonte de renda da metrópole. Daí vem o apelido Sin City (Cidade do Pecado) . O personagem mais legal com certeza é o grandalhão Marv. Violento, cabeça-dura, viciado em calmantes, Marv levava um puta jeito para ser o vilão da história. Mas ele é o grande herói – ou anti-herói. Nesta série, o napa roteiriza e também desenha, chegando ao ápice de seu traço, usando o negativo de branco e preto para dar sombra. Fudido, meu, fudido! Vai atrás do que a Editora Globo andou lançando do título, vai meu! Ainda tá aí?

Tá, pra você que ficou, já vou falando: Spawn é o personagem mais sortudo dos gibis. Porque ele também teve um número escrito por Frank Miller! E mais: um dos últimos trabalhos dele com o Morcego foi a dobradinha com Todd Mc Farlane na versão Image do encontro Batman e Spawn (que tenho que admitir: é uma merda).E só pra provar que o cara é mais ativo que o Fanboy quando toma um Viagra (olha o cara!), basta lembrar da minissérie 300 de Esparta (publicada aqui pela Editora Abril), na qual ele conta a história de uma batalha em Esparta, na Grécia Antiga. Não é só no ambiente urbano que o cara sabe trabalhar, né? 

Bão, é isso. Miller – polivalente, porra louca, nome de cerveja importada… e um pusta dum narigão de respeito! – elcid@a-arca.com


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