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Puro mistério. Este era o ambiente em torno do lançamento de "Asterix e Latraviata", o mais novo álbum da boa e velha patota de gauleses em sua interminável batalha contra a dominação romana. Em entrevista coletiva concedida em Rennes, na França, a uma série de jornalistas internacionais (da qual, obviamente, eu não participei porque não tinha dinheiro para viajar – e, aliás, nem falo francês mesmo), Albert Uderzo, um dos criadores de Asterix, Obelix e toda a galera, evitou muito detalhes sobre a obra, fazendo segredo sobre seu conteúdo. "Exatamente como num filme de suspense, o objetivo é não antecipar a trama, o que pode acabar frustrando os leitores", afirmou Uderzo.
Os números de "Asterix e Latraviata" são de assustar: 8 milhões de exemplares distribuídos em todo o mundo, sendo 3 milhões em língua francesa e 5 milhões em 107 línguas e dialetos diferentes. Aqui no Brasil, 100 mil exemplares foram lançados inicialmente pela Editora Record. E pensar que o primeiro álbum da turma com "ix" no nome, "Asterix, o Gaulês", teve uma tiragem de apenas 6 mil exemplares na França…
A história de "Asterix e Latraviata" é interessante especialmente pelo aparecimento das mães de Asterix e Obelix, que dão as caras pela primeira vez em quase 40 anos de aventuras. As duas aparecem na irredutível aldeia pra comemorar o aniversário dos filhotes. No entanto, elas acabam se tornando o foco de toda a confusão, já que trazem como presentes um capacete e uma espada romanos…pertencentes a Pompeu, rival do imperador Julio Cesar pelo controle de Roma. Óbvio que, quando o cara descobre o destino de seus pertences, bola um plano para recuperá-los, infiltrando entre os gauleses a doce Latraviata – disfarçada de Falbalá, a paixão da vida de Obelix (você deve lembrar da ruiva deliciosa do longa-metragem).
As grandes homenageadas do álbum são, sem dúvida nenhuma, as mulheres gaulesas. Historicamente, vale lembrar que elas eram muito mais ativas do que as passivas romanas: enquanto as damas de Roma eram meramente donas-de-casa, sem direito a voto ou a porra nenhuma, as gaulesas eram consideradas socialmente muito importantes, influenciando pra cacete nas decisões políticas e até participando das guerras, distribuindo porrada pra todos os lados.
Quem é fã da série se lembra muito bem que as personagens femininas da aldeia gaulesa sempre foram de personalidade forte. Naftalina, por exemplo, é a mulher do chefe da aldeia, Abracurcix. Invocada e mal-humorada, a primeira-dama é o cérebro por trás do líder dos gauleses. É o caso também da jovem e bela esposa do ancião Veteranix: meiga, delicada, uma gracinha, ela sabe muito bem aprontar das suas quando quer. Ahhhhhhhhhhhh, sim: só para atiçar os mais curiosos, "Asterix e Latraviata" traz ainda a história curta "O Nascimento de Asterix e Obelix", que nos mostra…os pais dos dois!!! Tudo bem, alguns críticos dizem que este é um dos piores álbuns de Asterix nos últimos anos, mas, que diabos: é Uderzo na mais plena forma!
O bigodudo é o suuuuuuuuuuuuuuuuucesso!
Criados em 1959, Asterix e Obelix acabaram ficando órfãos em 77, com a morte de René Goscinny, o roteirista da série. Seu parceiro, o desenhista Albert Uderzo, não queria continuar o gibi, porque não se achava tão talentoso na arte da palavra quanto Goscinny. O cara chegou a desaparecer durante um tempo, entrando num exílio mais do que forçado. Alguns chegaram até a noticiar que ele também tinha batido com as dez.
Mas Uderzo resolveu continuar, mesmo sob uma avalanche de críticas de especialistas do mercado, acusado de deixar os roteiros menos ácidos e políticos. Um dos meus ex-professores na faculdade faz parte do côro de críticos: "O Goscinny era um gênio. Por trás dos roteiros aparentemente infantis, ele escondia deliciosas pitadas de crítica social e política, cutucando ao mesmo tempo europeus e americanos".
Na verdade, Uderzo parece não estar nem aí pra este tipo de comentários…e nem era para estar. Afinal, nestes 30 álbuns já lançados desde 64, Asterix já vendeu mais de 280 milhões de exemplares em 77 países. O personagem tem até um parque temático na pequena cidade francesa de Plailly, a 35 quilômetros da capital Paris, que recebe em torno de 4 milhões de visitantes semestre.
Uderzo planeja continuar as aventuras de Asterix por um bom tempo. Mas, depois de sua morte, esta querida turma de personagens deve sair de circulação: em seu testamento, ele já deixou uma cláusula dizendo que, por mais que seus herdeiros (e os de Goscinny) sejam detentores naturais dos direitos autorais, nenhuma nova história deverá ser produzida. Essa é a postura clássica dos autores europeus, voltados para o chamado "quadrinho de autor", no qual o criador tem todos os direitos sobre suas criações. Lá nas terras do Tio Sam, sabemos muito bem quem fica com os personagens depois do falecimento do quadrinista: no caso do Batman ou do Homem-Aranha, por exemplo, são as editoras como DC Comics ou a Marvel. Já em se tratando de personagens como Garfield ou Snoopy, sem uma editora específica responsável pela publicação de seus quadrinhos, a probabilidade é que os direitos sejam transferidos para a agência distribuidora, os chamados "syndicates". Pra evitar que façam merda com um de seus "filhos", bem faz o Uderzo, não?
Grande coisa, esse tal de Obelix comer javali. Vamos lá no Tantra que a gente come numa boa e nem suja as mãos – elcid@a-arca.com
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