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Bom, vou deixar as gracinhas habituais de lado e ir direto a ponto: a esta altura do campeonato, se você costuma ler pelo menos um jornal por dia ou tem o costume de acessar sites de notícia já deve estar sabendo da mais recente história insistindo na conexão do RPG com um crime bárbaro relacionado a alguma espécie de prática do "satanismo". Caso você esteja por fora, vale aí um resumão: a estudante Aline Silveira, 18 anos, foi assassinada no último dia 14 de outubro, em Ouro Preto/MG. O corpo da menina foi encontrado em cima de um túmulo, mutilado com 15 facadas, com os braços abertos horizontalmente e os pés sobrepostos (como se tivesse sido crucificada), no cemitério da Igreja das Mercês. A mutilação e a posição em que o corpo da garota foi abandonado sugerem, segundo a Polícia, que ela tenha sido vítima de um "ritual de magia negra" inspirado no Advanced Dungeons & Dragons. Ao que parece, Aline jogava este sistema, e no mesmo dia seu personagem teria morrido numa aventura.
(pausa para você recolher o seu queixo)
Você, meu caro jogador de RPG mentalmente são, ainda deve estar procurando uma maldita conexão entre este crime horrendo e o jogo do qual você gosta tanto, não é? Pois é: eu também. Mas o pior não é isso, meu chapa. O buraco é mais embaixo. O procurador da República em Minas, Fernando de Almeida Martins, abriu um procedimento administrativo para investigar a possibilidade dos assassinos de Aline terem sido influenciados pelo RPG. Segundo ele, se esta relação for comprovada, ele vai exigir a proibição do jogo no Brasil.
(pausa para você ir buscar seu queixo na cozinha)
É, viu só como agora complicou? Segundo o procurador, as investigações científicas serão realizadas com auxílio de um psicólogo ou um psiquiatra, chamados para estudar os detalhes do jogo. A idéia é descobrir "as conseqüências da prática do RPG para as pessoas" (Meu Deus do céu…). "As conclusões têm que ser seguras, indicando que o autor ou autores desse homicídio agiram sob influência do jogo. Se isto ficar comprovado, eu inicio imediatamente o procedimento para exigir a proibição do RPG em todo o Brasil", afirmou o dito cujo, em entrevista ao site de notícias do portal Terra.
Na verdade, se você é do tipo atento ao que rola ao redor do mundo, deve ter sacado que era de se esperar. Vez por outra, os "caçadores de bruxas" de plantão (leia-se puristas e tradicionalistas), como que sentindo saudades dos encapuzados da Inquisição e suas tochas vingadoras, elegem uma "bruxa" para perseguir. O caso mais célebre foi a das histórias em quadrinhos, perseguidos na década de 50 por um psicólogo chamado Frederic Wertham. Em seu livro, chamado "Sedução dos Inocentes", ele sentenciava que os gibis eram a principal causa da deterioração moral das crianças e adolescentes. E então, como em plena Idade Média, este cidadão comandou uma horda de pais enfurecidos, queimando pilhas e pilhas de revistas em quadrinhos em praças públicas (se ele imaginasse que este ano, na 52ª Feira do Livro de Frankfurt, os quadrinhos foram oficialmente reconhecidos como gênero literário…).
Depois, seguiram-se outros exemplos clássicos, como o rapaz americano que se suicidou e, ao seu lado, encontrou-se um exemplar da revista "Sandman" (logo, o gibi de Neil Gaiman foi considerado o culpado da morte) e, mais recentemente, os dois debilóides (desculpem, foi o termo mais sensato que me veio à mente) que invadiram uma escola em Denver, no Colorado, e mataram vários de seus colegas de escola. Nas investigações, descobriu-se que a dupla era adepta de jogos de computador como "Quake" e ouvia o som do "satânico" Marilyn Manson -logo, Manson foi considerado "mentor intelectual dos crimes".
Aqui no Brasil, vale lembrar o estudante de medicina Mateus Meira que, durante uma sessão do filme "Clube da Luta", no Shopping Morumbi (São Paulo/SP), matou três pessoas com uma sub-metralhadora. É claro que a película de David Fincher foi atrelada ao crime. E também o danado do "Quake" – que o mesmo Fernando de Almeida Martins ajudou a proibir no país.
Há cerca de um ano, o jogador de RPG Jameson Pereira Barbosa (conhecido como "Vampiro") trouxe esta mesma dicussão à tona, sendo o principal suspeito do assassinato de duas garotas em Teresópolis/RJ. De acordo com Sônia Ramos, madrasta de uma das garotas e voluntária no Juizado da Infância e da Juventude de Teresópolis, Jameson teria sido visto "bebendo sangue humano e comendo cadáveres no cemitério". A mesma Sônia contou ainda que encontrou, de posse do filho mais velho, o livro básico de regras do GURPS. Depois de ver no livro a descrição de como funcionaria o sufocamento de uma pessoa, ela proibiu o filho de jogar RPG (essa eu nem vou comentar). "Como podem dizer que um jogo como esse é educativo? Eles ensinam um monte de coisas que não são construtivas. Tem até um trecho que fala sobre magia negra", disse ela na época, em entrevista ao jornal "O Dia" (que, por sinal, manteve uma cobertura para lá de parcial do caso).
É muito fácil se eximir da responsabilidade!
Vamos aos fatos: eu sou casado. Trabalho (e muito) para pagar minhas contas. Fui eu quem banquei o terceiro e o quarto anos da minha faculdade sozinho – sim, me formei no ano passado, em Publicidade e Propaganda. Não ando só de preto (na verdade, tenho uma coleção de camisas de super-herói), não bebo sangue e nem como cadáveres. Para ser sincero, não bebo, não fumo, nunca usei nenhum tipo de drogas. Mas tenho uma prateleira recheada de livros de RPG (incluindo o módulo básico do GURPS). Saio todos os fins-de-semana com os meus amigos, vamos ao cinema, freqüentamos bares e discotecas…exatamente como todo jovem comum costuma fazer. Alguém deve estar se perguntando o porquê de toda esta explicação. Simples: em que eu me pareço com o tal Jameson e com outros tipos do gênero? Em nada. A não ser no fato de que sou jogador e mestre de RPG, como ele.
As declarações que andei ouvindo neste caso levam a crer que o RPG é diabólico e que qualquer um que se "arrisque" a joga-lo pode se tornar um maníaco em potencial. Nada disso. Somos todos pessoas diferentes. Criados de formas diferentes, por famílias diferentes, em ambientes diferentes e com círculos de amizade diferentes. Tudo isso influi na formação emocional e mental de um ser humano. Dizer que foi o RPG que fez alguém cometer um assassinato tão brutal é dizer que eu, como jogador de RPG, vou matar alguém em breve. Para mim, um jogo de RPG é puramente diversão: me reúno com meus amigos, damos muita risada, interpretamos personagens dos mais estranhos e bizarros e, depois que acaba a sessão de jogo, vamos todos tomar uma cerveja (eu só vou junto e tomo Coca-Cola).
Eu tenho vários amigos que jogam o sistema de RPG conhecido como "Vampire: The Masquerade", sobre uma sociedade secreta de vampiros que controla a humanidade no submundo – e que é apenas uma das inúmeras ambientações que o RPG permite. Destes amigos, alguns se comportam exatamente como o tal do Jameson: se vestem unicamente de preto, fazem "cara-de-mau" e se comportam, fora do jogo, exatamente como seus personagens. Outros, como eu mesmo (jogo "Vampire…" há quase sete anos), não tem absolutamente nada a ver com este estereótipo que eu, El Cid, considero B-A-B-A-C-A.
No entanto, é mais fácil colocar a responsabilidade num livro, ou num programa de televisão, ou mesmo num filme, do que nas PESSOAS. É muito mais fácil dizer que o "Clube da Luta" levou Mateus Meira a matar as pessoas no cinema do que assumir, por exemplo, que ele tenha algum tipo de desvio mental ou comportamental. Para os pais dos anos 90, tornou-se muito mais simples colocar o filho na frente da televisão e esperar que ela aja como educador. Então, quando surge um programa de qualidade duvidosa, é mais simples culpa-lo pelos problemas morais e éticos da sociedade e pedir que saiam do ar, ao invés de reassumir seu papel como responsáveis pela educação de seus filhos e simplesmente mudar de canal. Ou melhor ainda: tentar orientar os pequeninos sobre o que é bom e o que é ruim, fazendo com que eles desenvolvam e exerçam o mais preciso bem do homem: a liberdade de expressão (pode deixar que eles mesmos vão fazer uso do controle remoto responsavelmente).
A sociedade está mudando o foco. Depois da tal proibição do RPG, vão continuar acontecendo crimes como este e outros bodes expiatórios vão entrar na berlinda. E logo uma censura terrível vai se abater sobre nossas cabeças. E eu sei que, quem tomou no rabo por causa da ditadura, não vai querer que isso aconteça outra vez.
A solução
Pois é, ela existe sim. E está nas mãos de pais e educadores. Que têm a obrigação de se informar mais sobre o RPG e suas inúmeras aplicações educacionais – porque falar mal sem ter nem idéia do que se trata é simplesmente julgar o livro pela capa. E estes mesmos pais têm a obrigação de perceber se seus filhos não têm estabilidade mental para participar de uma atividade social como esta. Depois de constatar isso, leve seu filho a um psicólogo ou psiquiatra para tratar da cabecinha dele. Quando ele estiver bem, vai até fazer bem para a recuperação do garoto se socializar e se divertir com os amigos em torno de uma mesa de jogo.
E outra parte da solução está nas nossas mãos. Quer um exemplo? Como bem se sabe, os Encontros Internacionais são recheados de malucos de todas as espécies fantasiados como seus personagens preferidos. Proliferam criaturas sobrenaturais, cavaleiros medievais, seres futuristas e Stormtroopers (por sinal, parabéns aos caras vestidos como os soldados do Império de Star Wars, tava simplesmente animal!). E tem gente que realmente entra no personagem que está caracterizando. Até aí, tudo bem. Mas tem gente que acaba exagerando. Não podemos esquecer, antes de tudo, que aquele é um lugar público. Assim como rolava na Marquise do Ibirapuera (que, na minha opinião, era o lugar ideal para o EIRPG…maldita prefeitura!), tinha muito cidadão fantasiado de vampiro babando sangue mexendo com as pessoas que passavam pela rua ou mesmo com os visitantes do Mart Center -que, repito, é um lugar público e aberto! Vamos tirar sarro e nos divertir, mas sem este tipo de excesso.
Não, não sou mãe e nem pai de ninguém pra ficar dando "bronquinha". Mas é este tipo de putaria que acaba com a imagem que as outras pessoas tem do RPG. Aí, não demoram a aparecer casos de pais falando: "O quê, você vai jogar RPG? Nem a pau! Eu vi aqueles delinqüentes no Ibirapuera, são um bando de satanistas, com eles você não se mete!". Portanto, vamos segurar a onda com quem não é obrigado a entender o que diabos é este jogo esquisito que a gente joga. Ao invés disso, vamos explicar do que se trata e fazer as pessoas começarem a jogar. Desta forma, nosso espaço aumenta…e paramos de ser acusados de comer o fígado de alguém.
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