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Artigo adicionado em 30/10/2002, às 01:19

ESPECIAL SENHOR DOS ANÉIS: MAS QUEM FOI ESTE TAL DE TOLKIEN MESMO?
Conheça mais sobre o autor que criou uma das obras de literárias mais importantes do mundo J.R.R.Tolkien, que também adorava um cachimbo Embora tenha vivido a maior parte de sua vida na Inglaterra, John Ronald Ruel Tolkien nasceu na cidade de Bloemfontein, na África do Sul, em 1892. O universo de fantasia criado por este […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

Velhinho boa gente, parece uma versão britânica classuda do meu avô...

J.R.R.Tolkien, que também adorava um cachimbo

Embora tenha vivido a maior parte de sua vida na Inglaterra, John Ronald Ruel Tolkien nasceu na cidade de Bloemfontein, na África do Sul, em 1892. O universo de fantasia criado por este cavalheiro influenciou não só a alta literatura, mas também a cultura pop: RPGs, bandas de rock e até clássicos da ficção científica como "Guerra nas Estrelas" beberam descaradamente na fonte de Tolkien. Pudera: a Terra-Média, que mistura clássicas aventuras de cavaleiros medievais com magia e uma série de criaturas lendárias como elfos, anões, trolls, orcs e dragões, tem geografia, história e botânica todas próprias. Cada raça tem suas características bem distintas…e sua própria linguagem. Sim senhor, Tolkien criou um verdadeiro dicionário da língua élfica!

Professor de Oxford, filólogo e erudito com especialização em folclore, Tolkien teve seus livros publicados em 24 idiomas, tendo vendido mais de 50 milhões de exemplares no mundo todo. Segundo dados da finada Revista Submarino, o primeiro volume da trilogia O Senhor dos Anéis, "A Sociedade do Anel", vendeu mais de 12 mil exemplares no Brasil, onde é publicado pela Martins Fontes. O livro seguinte, "As Duas Torres", teria alcançado a marca de 9.8 mil exemplares e o último, "O Retorno do Rei", chegou aos seus 7.9 mil exemplares. Nada mal, eu diria, para o livro eleito pelos internautas do site americano de e-commerce Amazon.com como a obra literária mais importante do século.

Filho de uma família humilde, Tolkien saiu da África do Sul depois da morte do pai, em 1896. O jovem John Ronald, filho mais velho, agora teria a responsabilidade de cuidar da mãe e do irmão mais novo, Hilary, num país completamente novo: Inglaterra. Vivendo uma vida modesta nas regiões rurais inglesas, o rapaz viajava de trem todos os dias para estudar na cidade de Birmingham, em pleno crescimento industrial. Por volta de 1900, a família de Tolkien se converteu ao catolicismo – na Inglaterra, para quem não se lembra, o protestantismo é religião oficial.

LOVE OF MY LIFE, COMO DIRIA FREDDIE

Tudo mudou na aparentemente pacata vida de J.R.R.Tolkien quando sua mãe, Mabel, morreu. O rapaz, na época com seus 12 anos, passou a morar com os irmãos numa hospedaria. A responsabilidade sobre as crianças ficara a cargo do padre Francis Morgan, amigo da mãe de Tolkien. Este homem religioso e em alguns momentos bastante rígido tornou-se tutor da molecadinha, cuidando para que sua educação fosse a melhor possível. Na tal hospedaria, John conheceu a bela Edith Bratt. A paixão entre os dois enfureceu o tutor de Tolkien, que proibiu que eles se vissem até que ele tivesse completado 21 anos (na época, o futuro autor de "O Senhor dos Anéis" tinha 16 anos). Acatando as ordens do padre, o jovem ingressou com brilhantismo no curso de Língua e Literatura Inglesa na Universidade de Oxford, onde se destacava nas aulas de línguas estrangeiras – por sinal, o estudo do galês e do finlandês ajudaram no desenvolvimento do idioma élfico.

Quando o autor finalmente saiu da universidade, em 1915, seu namoro com Edith ganhou seriedade e provou ser mais do que uma mera paixào de verão. Antes de ser convocado para as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, os dois se casaram em 1916. Felizmente a carreira de Tolkien no exército durou pouco – depois de quatro meses, ele contraiu uma infecção, uma espécie de tifo agravada pela sujeira que se formava nas trincheiras. Acabou mandado de volta para a Inglaterra. Sob os cuidados da doce Edith, ele começou a escrever suas primeiras histórias envolvendo elfos, anões e afins. Com o fim da guerra, Tolkien entrou de cabeça na carreira acadêmica. Ocupando a carreira de professor de anglo-saxão em Oxford, ele sabia que era apenas o começo.

NUMA TOCA NO CHÃO VIVIA UM HOBBIT

Esse livro é muito bom...mas quanto anão, meu Deus do céu!

Detalhe da edição hardcover americana de "O Hobbit"

Com os filhos John Francis Reuel, Michael, Christopher e Priscilla, Tolkien era do tipo paizão. E toda noite, contava histórias para os pequenos dormirem. Mas o detalhe aqui é que ele mesmo criava estas histórias. Quando começou a contar a saga de um hobbit chamado Bilbo, Tolkien documentou esta história…de onde surgiriria o delicioso livro "O Hobbit", ponto de partida mais do que ideal para a obra do autor. A história da publicação foi inusitada: uma cópia do livro, até então sem título, chegou nas mãos de Stanley Unwin, da editora George, Allen & Unwin. O cara pediu ao seu filho de 10 anos que lesse…e ele adorou! "O Hobbit" acabou sendo publicado em 1937 e foi um sucesso. Detalhe: todas as ilustrações e mapas das obras de Tolkien a partir daí são do próprio autor.

A continuação das aventuras do pequenino hobbit nos apresentaria a outro protagonista cheio de carisma: Frodo Bolseiro. Deixando-se levar cada vez mais pelos velhos mitos que vinha estudando, Tolkien lapidou sua obra-prima, "O Senhor dos Anéis", durante 16 anos. Na editora George, Allen & Unwin, quem estava no comando era Rayner – isso mesmo, o filho do editor, que tinha aprovado "O Hobbit" para o pai. Numa atitude cheia de coragem, ele preferiu dividir "O Senhor dos Anéis" em três volumes (outras tentativas do gênero tinham fracassado miseravelmente), lançado entre 54 e 55. Foi um verdadeiro boom em toda a Europa.

No entanto, a passagem de Tolkien de "historiador e autor respeitado" para "ídolo da cultura pop" só aconteceria em 65, quando uma cópia pirata do livro foi parar nos EUA e acabou sendo rapidamente incorporada pelo nascente movimento hippie. O livro virou símbolo da contracultura graças aos temas que abordava: a consciência ambiental (cristalizada na figura dos elfos) e o combate às forças da corrupção e da guerra (Sauron e o Um Anel). Não demorou para que o autor ganhasse fãs, e acabasse sendo cultuado como um gênio. Tudo que Tolkien escrevia virou sinônimo de sucesso. O único que não se sentia confortável com esta história toda…era o próprio Tolkien. Vamos falar sério: ele nunca foi um pop star. Era sim um pacato e tranquilo erudito de Oxford, alçado em poucos anos ao status de ídolo pop. Tudo bem, para ele, assim como para qualquer um, é uma senhora duma massagem no ego. Mas ele lamentava a cada vez maior falta de privacidade que vinha tendo. Assim, em 69, aproveitando que já tinha dado rumo na vida a cada um de seus quatro filhos, Tolkien preferiu sair dos holofotes da fama e, já aposentado, se mudou para Bournemouth, um balneário na Inglaterra onde ele viveu ao lado da mulher Edith até 1971…quando ela faleceu.

Entristecido, ele voltou ao trabalho em Oxford. Mas, segundo alguns relatos deixam claro, a vida já não tinha mais significado para este homem. E, antes mesmo que pudesse terminar o seu sonho (escrever a história completa da Terra-Média, da gênese ao apocalipse), ele faleceu em 2 de setembro de 1973. O escritor deixou pilhas de notas e contos inacabados, alguns até mesmo publicados postumamente pelo seu filho Christopher. Além dos três volumes de "O Senhor dos Anéis" e de "O Hobbit", prólogo do épico, você pode achar aqui no Brasil "O Silmarillion", livro que conta a história da Terra-Média muito antes de Sauron marchar sobre ela. Em inglês, dá para achar "Unfinished Tales of Numenor and Middle-Earth" (conhecido como Contos Inacabados, um dos livros mais recentes) e "The Adventures of Tom Bombadil and other Verses from the Red Book" (ou As Aventuras de Tom Bombadil).

Para ler:
:: "J.R.R. Tolkien – Uma Biografia", de Humphrey Carpenter (Ed. Martins Fontes)

 

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