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Para este endiabrado moleque, nem parece que se passaram 50 anos. No entanto, para o pobre Sr.Wilson, seu vizinho e principal alvo de suas travessuras, cada dia parece durar mais de um século… Mas é isso aí: no dia 12 de março de 1951, foi publicada nos jornais americanos a primeira tirinha do simpático Dennis Mitchell. Se o nome não lhe é familiar, que tal se nós chamarmos o pivete de "Dennis, o Pimentinha" (em inglês, Dennis, The Menace – que na verdade é ‘ameaça’)? Lembrou, né? 🙂
No entanto, a data não foi comemorada como devia já que, meses depois, o cartunista americano Henry "Hank" King Ketcham (conhecido somente como Hank Ketcham), criador do personagem, faleceria aos 81 anos. Isso mesmo: um câncer levou Ketcham, no último dia 1º de julho, para a grande escola de mestres que se forma no céu, liderada pelo imortal Jack Kirby.
O loirinho ficou imortalizado pela irresistível carinha de sapeca, cheia de sardas, capaz de derreter o coração de qualquer carrancudo, mesmo depois dos maiores aprontos (basta dar uma olhadela na figura ao lado pra entender do que eu estou falando). O modelo de Ketcham não poderia ter sido melhor, já que o personagem foi baseado no próprio filho do autor, na época apenas com quatro anos de idade. O currículo do pai da criança é dos melhores: depois de uma passagem como animador pela Lantz Production (empresa de Walter Lantz, criador do Pica-Pau), ele caiu direto na Disney, onde chegou a trabalhar no sensacional longa-metragem "Pinóquio".
Sucesso absoluto, já no final de 1951 o personagem estava em mais de cem publicações diferentes, contrariando as previsões de uma série de editores que bateram as portas na cara do Ketcham. "Mais um moleque travesso nos quadrinhos não vai dar certo", afirmaram alguns. Tsc, tsc: mal sabiam eles. Atualmente, as aventuras de Dennis são publicadas em 1000 jornais diferentes, em mais de 48 países. Depois de desenhar o pequeno sapeca por 43 anos, em 94 Ketcham passou o bastão para uma série de outros quadrinistas.
Ardido feito pimenta
As aventuras do simpático Dennis se passam num típico subúrbio americano, aquele que nós brasileiros conhecemos muito bem de todos os filmes, desenhos animados e seriados que já vimos (basta lembrar do bairro onde morava Kevin Arnold, de "Anos Incríveis", com todas aquelas casas iguaizinhas). As crianças brincando no jardim, os pais assobiando e cortando a grama, as mães cozinhando aquela deliciosa torta de maçã, o cheirinho se espalhando pelo quintal…é, acho que você já entendeu.
Dennis é um garoto comum, que como todos os outros vai à escola e brinca com os amigos até a hora de entrar para o jantar. No entanto, o que o torna especial é esta "habilidade" para arrumar confusão. É isso mesmo: Dennis é não faz nenhuma travessura de propósito. Ele nunca quis destruir o canteiro de rosas premiadas do Sr.Wilson: as coisas simplesmente acontecem! O garoto é realmente inocente de todas as acusações. Pra falar a verdade, ele é mais bem-intencionado do que se imagina, confiando irrestritamente em todos à sua volta – o único detalhe é que o garoto é completamente desastrado. E muito sortudo, diga-se de passagem. Ou como diabos você acha que ele sai um único arranhão de todas as suas estripulias?
Seus pais são duas figuras carimbadas. A mãe, Alice, é o verdadeiro pai da família. É ela quem dá as broncas e castiga o menino quando necessário, já que o pai, Henry (o mesmo nome do criador do personagem), passa mais tempo trabalhando do que em casa. Aliás, algumas vezes dá pra entender de quem o pequenino herdou as trapalhadas: Henry é um típico nerd estabanado, que derruba tudo no meio do caminho e quase morre do coração de tanto stress quando descobre mais uma de Dennis. E o cara ainda é engenheiro de aeronáutica, imagina só.
Mas a jovem Alice também trabalha, mesmo que não em período integral. E aí é que entra em cena o mais divertido personagem da série, o velhusco George Wilson. Vizinho da família Mitchell, é este aposentado bonachão quem sempre acaba encarregado de cuidar de Dennis quando os pais estão fora. E sempre acaba se tornando vítima do Pimentinha, que em contrapartida o considera seu melhor amigo. Na verdade, por trás de todos os gritos e chiliques, o carrancudo Sr.Wilson esconde um coração de manteiga derretida: ele também gosta muito do menino. Além do carinho que nutre por Wilson, Dennis está sempre na casa dos vizinhos também para receber os mimos da mulher do velho, Martha, que adora o garoto como uma espécie de neto que nunca teve.
Mas é óbvio que nem só dos adultos vive o mundo do pequeno Mitchell. A mais emblemática delas é a pentelha da Margaret (a ruivinha que nos desenhos era chamada de Margarida). Pentelha porque ela não deixa o Dennis em paz: sua voz estridente é o calvário da vida do pestinha. Há quem acredite que a eterna relação de amor e ódio entre os dois vá acabar em casamento (já que, em alguns momentos, percebe-se que ela sente muito mais do que amizade por Dennis). Além dela, também estão presentes nas traquinagens do loirinho o menino Joey (nos desenhos, Juca) e a sorridente Gina (nos quadrinhos, muito mais dos que nos desenhos, fica claro que ela é uma descendente de índios americanos).
Além dos amigos, Dennis tem dos simpáticos bichinhos de estimação. O desenho animado popularizou o enorme cachorro branco Ruff (que no desenho é chamado de Ruffos), carinhoso, babão e tão desastrado quanto o dono. No entanto, nos gibis também existe um gatinho chamado Hotdog, que Dennis batizou assim por causa de sua cor mostarda (entendeu, hã?).
O Pimentinha vai parar na telinha e na telona
O prestígio (que não é chocolate de côco) acabou levando Dennis para a televisão. Primeiro, numa esquisita série produzida pela emissora americana CBS de 1959 a 1963. No papel do Pimentinha, um tal Jay North. Para os fãs do gibi, o mais estranho foi ver o personagem do Sr.Wilson ser substituído, quando da morte de seu intérprete, Joseph Kearns. Em seu lugar, no quarto (e último) ano do seriado, surgiria o irmão de Wilson, John (interpretado por Gale Gordon). Graças ao bom deus dos gibis, nem deu as caras em telas brasileiras.
Os brasileiros devem se lembrar imediatamente do desenho animado produzido pela obscura General Mills entre 88 e 89, que preservava fielmente o traço e o estilo de Ketcham. Pra falar a verdade, o desenho deve ser até mais fácil de lembrar do que os gibis, já que o SBT sempre usou "Dennis, o Pimentinha" como uma espécie de trunfo em sua programação de desenhos, colocando-o para tapar buracos aqui e ali (se não me engano, ainda é possível assistir alguns episódios aos sábados pela manhã).
Quanto ao cinema, Dennis experimentou um momento mágico…e outro simplesmente deprimente. O momento mágico rolou em 1993, quando uma puta produção bacana escrita pelo John Hughes (o rei dos filmes para adolescentes dos anos 80) nos atingiu em cheio. Numa interpretação impecável, Walter Matthau arrebentou como Sr.Wilson. E o Christopher Lloyd ainda deu o ar de sua graça em mais um papel memorável (depois do Dr.Emmet Brown de "De Volta para o Futuro"), como um ladrão disposto a acabar com a paz da vizinhança. Mas como os americanos tem esta mania desgraçada de lançar arrepiantes continuações direto para vídeo, eis que surgiu o recente "Dennis, o Pimentinha 2", de 1998. Mudou tudo: ator, diretor e, principalmente, a qualidade da história – que faz lembrar muito mais "O Pestinha" (lembram dele?) do que o sorridente Pimentinha. Pois é, não é?
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