|
Embora um tanto atrasado, o bom e velho El Cid, como fã incondicional do trabalho dele, não podia deixar de comentar seu último trabalho. Claro que estou falando do mestre Will Eisner, criador do clássico personagem The Spirit e responsável por algumas das maiores obras do mundo dos quadrinhos, como "No Coração da Tempestade", "Um Sinal do Espaço", "New York: A Grande Cidade" e "Um Contrato com Deus", entre outros.
Seu último trabalho, "O Último Cavaleiro Andante", é uma fantástica adaptação para os quadrinhos do clássico do espanhol Miguel de Cervantes, "Dom Quixote". Com esta edição especial editada no Brasil pela Companhia das Letras, Eisner dá continuidade ao trabalho iniciado em "A Baleia Branca", adaptação do também clássico "Moby Dick". Sua principal motivação para investir nestas adaptações de grandes clássicos da literatura para os quadrinhos é estimular a leitura do livro original, trazendo uma versão resumida (mas nem por isso menos interessante) da história, mais acessível para crianças e adolescentes, principalmente. Essa é uma das facetas do trabalho deste americano de mais de 80 anos, sempre preocupado com a conotação de mola propulsora da educação que os quadrinhos podem ter.
O livro conta a história do velho Alonso Quixano, do vilarejo de La Mancha, no interior da Espanha. Eram os idos do século 18, e a cavalaria já era um sonho distante…mas não para Quixano, sempre afundado em livros sobre os feitos heróicos dos cavaleiros. Eis que o velhote resolve polir a armadura de cavaleiro de seu bisavô, guardada no sótão, e se torna o último cavaleiro andante – Dom Quixote de La Mancha. Pregando os ideais de bravura, honestidade e compaixão dos nobres cavaleiros, Quixote, de cima de seu pangaré (que ele chama de corcel) Rocinante, sai pelo mundo trazendo justiça, sempre acompanhado pelo fiel escudeiro Sancho Pança (um camponês que resolveu acompanhá-lo em suas viagens) e em busca da doce Dulcinéia de Tobasco, sua "dama d’amor". Seja pelas trapalhadas, ao confundir moinhos de vento com dragões, ou pelos atos heróicos de verdade (que contavam com boas pitadas de sorte), Quixote se tornou um lenda em toda a Espanha. Tido por muitos como louco, na verdade o que este velho senhor queria era sonhar…
A arte de Eisner continua a mesma: caricata, com muito sentimento e expressão (cada personagem é um personagem, facilmente reconhecível), de colorido forte e expressivo e com uma narrativa típica de um mestre em storytelling. Seus desenhos são tridimensionais, ou seja: você vê as dobras das roupas, o volume dos cabelos…nada é chapado e superficial como nos desenhos de todos os clones anabolizados do Jim Lee.
Vale a pena! Porque ele não é o Ulisses Guimarães, mas este velhinho também "é demais!".
A próxima vez que o Eisner vier pro Brasil, ele não sai sem falar comigo! – elcid@a-arca.com
|