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Você, que tem mais de 20 anos: lembra-se dos anos 80, quando você era só uma criança correndo pela sala em direção a TV, um Danoninho na mão e uma colher na outra, prestes a mergulhar no mundo mágico dos desenhos animados enquanto se lambuzava de doce? Lembra-se da sensação da inocência, dos cheiros, das formas, das cores? Lembra-se de como era fácil virar um guerreiro de Thundera empunhando apenas um cabo de vassoura? Pois foram exatamente estas sensações que senti me invadirem novamente quando sentei para assistir "Harry Potter e a Pedra Filosofal", a adaptação para as telonas do sucesso literário do britânica J.K.Rowling.
Antes de tudo, um resumo da história para quem nunca leu o livro (sim, o filme não é só para quem já conhece as histórias de Potter, tá?): o jovem Harry Potter (Daniel Radcliffe) nunca teve exatamente uma vida de rei na casa dos tios Válter (Richard Griffiths) e Petúnia Dursley (Fiona Shaw). Criado pelos parentes depois que seus pais foram mortos num acidente de carro, Potter era o elemento estranho da casa, rejeitado pelos tios e mal-tratado pelo mimado primo Duda (Harry Melling). Dormindo num armário debaixo da escada, ele só usava as roupas velhas e usadas do gordinho pentelho. Realmente a vida parecia não ter perspectivas muito boas…até o seu aniversário de 11 anos, quando começam a chegar infinitas cartas endereçadas a ele, todas trazidas por corujas!!!!! A verdade só vem à tona quando o gigante Rúbeo Hagrid (Robbie Coltrane) vai até o garoto e revela: ele é um bruxo, filho de Tiago e Lilian Potter, dois poderosos magos mortos pelo temível feiticeiro Voldemort. Mas…espera aí? Mortos? Não tinha sido um acidente? Pois é: tudo não passou de uma terrível mentira inventada pelos tios para tentar manter o menino fora do mundo "esquisito" dos bruxos.
A partir daí, Potter descobre que está sendo convidado a ingressar a Escola de Magia de Hogwarts, o melhor instituto para bruxos do mundo. Diabos, e quem pensaria duas vezes em deixar o mundo dos trouxas (como os magos chamam os "não-bruxos") e ir direto para a estação King’s Cross, pegar o trem na secreta plataforma 9 3/4, a caminho de um mundo completamente novo??? Eu é que não! No caminho para Hogwarts, Potter acaba ficando amigo do simpático Rony Weasley (Rupert Grint), vindo de uma família cujos irmãos sempre frequentaram a escola dirigida pelo misterioso Alvo Dumbledore (Richard Harris). A dupla conhece ainda Hermione Granger (Emma Watson), aprendiz de bruxa totalmente CDF e metida a besta.
O meu primeiro elogio ao filme, uma adaptação fidelíssima da obra de Rowling pelas mãos do diretor americano Chris Columbus (de "Esqueceram de Mim" e "Uma Babá Quase Perfeita"), vai para as atuações. O trio de crianças que estrela o filme é soberbo. Daniel Radcliffe é Harry Potter dos pés a cabeça: simpático, meio desastrado, com aquele olhar sonhador… e ganha facilmente o público com a sinceridade de seu sorriso. Já o Rony é engraçadíssimo, com certeza a figura mais divertida do filme. E até a Hermione, uma mala sem alça e sem rodinha, consegue se mostrar uma gracinha de menina! Quanto ao resto do elenco, todo formado por atores britânicos, não tem nem o que discutir: David Bradley (Sr.Filch), Richard Griffiths (Tio Válter), Ian Hart (Professor Quirrell), Alan Rickman (Professor Snape), Fiona Shaw (Tia Petúnia) e, especialmente, Maggie Smith (Professora McConagall) e o legendário Richard Harris (Alvo Dumbledore) são todos premiados atores de cinema e teatro, alguns até com formação shakesperiana. O requinte das interpretações com o inconfundível e divertido sotaque britânico é mais do que garantido.
:: Das páginas para a grande tela
Embora uns e outros críticos (nem preciso dizer quais, já que os fãs de Harry Potter andaram lendo uma certa revista semanal e não gostaram nem um pouco do que viram…) digam que a magia do texto de Rowling se perdeu na adaptação para o cinema, o Cidão aqui discorda radicalmente. Tudo bem, é verdade que Columbus teve de condensar algumas partes da história, diminuindo ou simplesmente cortando a participação de alguns personagens da trama (os fantasmas, especialmente o Pirraça, ficaram completamente em segundo plano). Mas vamos e venhamos, isso já era esperado. Afinal, temos pelo menos duas tramas correndo paralelamente no livro – o embate entre as casas de Hogwarts (o que inclui a competição com Draco Malfoy e companhia) e a conspiração da Pedra Filosofal (incluindo aí a perseguição do Professor Snape). O filme só tem 2h30, fala sério – realmente seria preciso umas 4 horas para a coisa fluir como no livro. Não podemos esquecer que o público-alvo do filme são as crianças. A história deve ser sólida e nunca pode subestimar a inteligência do público infantil…porém, deve ir mais direto ao ponto para não confundir a cabeça dos não-iniciados. Quem nunca leu o livro vai se divertir tanto quanto já leu alguma vez na vida. Isso é o principal.
Verdade seja dita: eu trabalharia melhor o começo do filme, dando maior ênfase ao relacionamento de Potter com os Dursley e o mundo dos "trouxas", o que criaria um impacto muito maior quando ele (e o público) fosse apanhado de surpresa pela notícia de que é um bruxo. E realmente, para quem já leu o livro, em alguns momentos o filme parece correr um pouco, meio sem ritmo. Os dois vilões, Malfoy e Snape, acabam ganhando um pouco menos de importância, já que o foco são as descobertas e o dia-a-dia de Potter, Rony e Hermione. Mas são pequenos detalhes que não estragam em nada a diversão.
Ah, sim, já ia me esquecendo…a cena do quadribol, uma coisa que muita gente andou me escrevendo a perguntar. O que posso dizer? Emocionante, vertiginosa, de tirar o fôlego. Os sobrevôos, os rasantes, as trombadas e corridas, tudo é simplesmente de cair o queixo.
Na verdade, chegando ao fim desta crítica, releio tudo que escrevi e penso que nada disso era necessário ser dito. Lembro que só consegui pensar como um crítico de cinema (ou pretenso, eu diria) horas mais tarde. Assim que saí do cinema, tudo que eu conseguia era pensar em como é bom ser criança. E tudo que eu sei é que, naquelas duas horas de filme, como num passe de mágica, eu deixei de ser um trouxa e me tornei criança de novo. Será que você consegue? 🙂
"Harry Potter and The Philosopher’s Stone", 2001. Diretor: Chris Columbus. Com Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Tom Felton, Harry Melling, David Bradley, John Cleese, Warmick Davis, Richard Griffiths, Richard Harris, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Ian Hart, John Hurt, Fiona Shaw, Maggie Smith, Julie Walters, Madame Hooch. Trilha Sonora de John Williams.
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