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Tudo bem, é verdade que o escritor Dashiell Hammett, morto de câncer no pulmão no dia 10 de janeiro de 1961, é especialmente conhecido em todo mundo por sua criativa obra na literatura policial, renovando o gênero com muita ação e pouco papo. Tá legal, também é verdade que o famoso detetive Sam Spade foi sua maior criação, estrelando livros como "A Chave de Vidro" e o célebre "O Falcão Maltês", que no cinema tornou-se "Relíquia Macabra", estrelado por Humphrey Bogart no papel de Spade. Mas para os fãs de quadrinhos é uma merda (só falando assim mesmo, com perdão aos puritanos) ver que o escritor nunca é lembrado como roteirista de quadrinhos que foi, escrevendo, de 22 de janeiro de 34 a 16 de novembro de 35, as tiras do personagem "Agente Secreto X-9", desenhadas pelo magistral Alex Raymond (aquele mesmo, de "Flash Gordon") para o "Evening Journal", um dos mais importantes jornais americanos.
Vamos e venhamos, é verdade: pare num caderno de cultura dos principais jornais e veja se este "pequeno detalhe" da vida de Hammett chega sequer a ser citado. E olha que há quem diga que as aventuras do detetive Dexter (que assumia diversas personalidades, incluindo a do agente secreto X-9) eram o "Dick Tracy que Dick Tracy nunca foi".
A linguagem tinha tudo do melhor da literatura de Hammett: o clima "noir" que ele ajudou a celebrizar, os detetives duros e cínicos, divididos pelo amor da inocente mocinha e a sedução da vilã maquiavélica, serpenteando ao redor dele e disposta a se redimir no final da história. Tiroteios, diálogos confusos e inesperadas viradas na trama, suas marcas registradas, também estavam em "X-9".
A grande inspiração do escritor com certeza foram suas experiências reais como detetive na agência Pinkerton (por sinal, nome do chefe do protagonista do desenho "Pequeno Polegar, Detetive Particular"), durante a América da Lei Seca. Durante o "macartismo" (perseguição a tal lista negra de artistas acusados de serem comunistas), Hammett foi duramente perseguido e viu diversos de seus amigos serem mortos em circunstâncias misteriosas ou extraditados do país. Logo ele, que anos antes tinha lutado na 2ª Guerra Mundial, reconhecidamente como um sargento um tanto autoritário. Envolvido com roteiros de cinema graças a dramaturga Lillian Hellman (anos mais tarde, sua amada esposa), Hammett foi pouco a pouco desaparecendo, entrando numa depressão profunda e se tornando uma espécie de eremita, trancafiado na mansão onde o casal morava.
Foi justamente "Agente Secreto X-9" um de seus últimos trabalhos, muito elogiado pelos críticos. Depois de sua saída, no meio da história "The Iron Claw Gang", seu substituto direto foi o também escritor Leslie Charteris, criador do personagem Simon Templar ("O Santo"). No entanto, a tira nunca mais foi a mesma do celébre primeiro episódio, "The Top" ("O Caso Powers"). Como disse o estudioso Álvaro de Moya, em "História das Histórias em Quadrinhos": "(…) Hammett realizou um dos grandes momentos do policial nos comics, só comparável a ‘Red Barry’ e ‘The Spirit’". E como diabos pode-se esquecer disso, alguém aí do fundo pode dizer? Pois é: como eu suspeitava…
Dar puxões de orelha é comigo mesmo! – elcid@a-arca.com
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