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Artigo adicionado em 09/10/2006, às 06:06

::: OK ::: Revisitando AS VIRGENS SUICIDAS
“Quando pulou, ela provavelmente pensou que podia voar.” LEIA MAIS: ::: Crítica: MARIA ANTONIETA ::: Zarko revisita ENCONTROS E DESENCONTROS “…Elas continuarão não ouvindo nosso chamado de dentro daqueles quartos… onde elas ficarão sozinhas para sempre… e onde nós jamais encontraremos as peças para uni-las novamente.” Talento vem de berço? Em 1990, uma jovem chamada […]

Por
Leandro "Zarko" Fernandes


LEIA MAIS:
::: Crítica: MARIA ANTONIETA
::: Zarko revisita ENCONTROS E DESENCONTROS

“…Elas continuarão não ouvindo nosso chamado de dentro daqueles quartos… onde elas ficarão sozinhas para sempre… e onde nós jamais encontraremos as peças para uni-las novamente.”

Talento vem de berço? Em 1990, uma jovem chamada Sofia Coppola podia jurar que não. O problema é que a garota é parte integrante de um clã de deixar qualquer cinéfilo babando: prima de Nicolas Cage e Jason Schwartzman, sobrinha de Talia Shire (três grandes atores, por sinal), irmã de Roman Coppola (criativíssimo técnico de efeitos visuais e diretor de videoclipes)… e filha de Francis Ford Coppola, simplesmente um dos mais talentosos e prestigiados cineastas vivos nos Estados Unidos. E todo este histórico não a impediu de cometer uma das maiores atrocidades da história do cinema recente: o mico que pagou em “O Poderoso Chefão – 3.ª Parte”, quando foi forçada pelo pai a assumir o papel abandonado por Winona Ryder e entregou uma “atuação” tão ruim, mas tão ruim, que seria capaz de fazer corar até o Cigano Igor e o atual elenco de “Malhação” (!).

Se não herdou a mesma desenvoltura dos primos em frente às telas, Sofia Coppola descobriu, nove anos depois, que seu talento escondia-se não na frente, mas atrás das câmeras, na notória cadeira de diretor. Após se aventurar na direção com o elogiado curta-metragem “Lick the Star” (1998), Sofia decidiu que era hora de enfrentar um longa. Convocou alguns amigos, ganhou uma produção apadrinhada pela empresa de Francis, a American Zoetrope, adquiriu os direitos de um obscuro romance cult e gerou uma das obras mais significativas do ano de 1999 – além de dar um belo de um tabefe com luva de pelica na cara da imprensa, que já estava preparada para malhar a fita impiedosamente apenas por ser fruto da “menina ruim d’O Poderoso Chefão”.

O fato é que ninguém esperava que As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999), extraído do romance de Jeffrey Eugenides, resultasse em um pesadelo tão poético, complexo e, acima de tudo, contundente. Ao escolher pela cultuada história de cinco irmãs reprimidas como sua estréia, história de muito sucesso lá fora entre os jovens, Sofia provou ao mundo que tinha maturidade suficiente para conduzir uma trama com forte inclinação ao melodrama sem deixá-la perder o equilíbrio. O resultado, claro, é um trabalho para um público restrito, mas que revela com pouco esforço uma sensibilidade aguçadíssima e fora do comum por parte da direção. Sorte de principiante? Só o tempo diria – e sete anos e mais dois ótimos filmes depois, realmente disse. 🙂

Tá, e por que é um trabalho restrito? Porque é totalmente anti-convencional. A estrutura narrativa da fita de Sofia Coppola leva sua fidelidade à estrutura narrativa do romance de Eugenides a ferro e fogo; quem leu o livro, sabe que não encontrará aqui uma história com ordem cronológica marcadinha, e sim fragmentada, baseada nas lembranças nostálgicas e místicas (algumas vagas, outras nítidas) do narrador que, no passado, em sua juventude, foi uma das testemunhas de uma série de eventos que marcou para sempre a vida de um grupo de pré-adolescentes em um subúrbio de Michigan – portanto, se você achar que a narrativa é confusa e vaga demais, lembre-se que isto é proposital, já que memórias nem sempre (ou quase nunca) são 100% concretas.

Foi neste subúrbio de Michigan, em plenos anos 70, que viveu a família Lisbon: pai, mãe e as deslumbrantes e enigmáticas cinco filhas do casal, garotas entre 13 e 17 anos. Lindas, misteriosas e absolutamente inatingíveis, as irmãs Lisbon fizeram a cabeça dos garotos da vizinhança e da escola local, especialmente daquele grupinho de meninos que, à flor da idade, viviam suas primeiras experiências com o amor, o sexo e as drogas. O drama dos Lisbons, e conseqüentemente o drama dos garotos ansiosos por uma aproximação, começa quando a filha caçula, Cecilia Lisbon (Hanna R. Hall), de apenas 13 anos, tenta suicidar-se. Primeiro, uma tentativa frustrada; a segunda, tragicamente bem-sucedida. No prazo de um ano a partir daí, todas as meninas cometerão suicídio, pai e mãe abandonarão Michigan e o que costumava ser a residência dos Lisbons se transformará em um pedaço de concreto vazio e morto.

A partir do evento protagonizado por Cecilia, o personagem-narrador – construído de maneira perfeita por Giovanni Ribisi, com sua voz depressiva e melancólica – revisita e desconstrói este período de um ano no universo dos rapazes e seus objetos de desejo. O Sr. Lisbon (James Woods), um simplório professor de matemática, é tão avoado quanto submisso, e deixa o comando da família nas mãos da Sra. Lisbon (Kathleen Turner), senhora absurdamente religiosa que controla as filhas com rédeas curtas, impedindo-as de viver a adolescência em todos os seus detalhes e de travar um mínimo de contato com outros jovens potencialmente “corruptores”.

A súbita morte de Cecilia transforma a rotina da família. Enquanto o Sr. Lisbon se fecha cada vez mais em seu mundo particular, a assustada Sra. Lisbon radicaliza ao extremo sua proteção às outras filhas, eliminando qualquer espécie de contato com o mundo exterior. Ao mesmo tempo, as meninas enxergam no ato de Cecilia uma desesperada busca por liberdade, o que as deixa com um tremendo grito de alforria preso na garganta – em especial Lux (Kirsten Dunst), de 15 anos, a mais sensual e vulnerável das irmãs, e também aquela que funciona como “líder”. A revolta calada e a repressão da explosão da adolescência das irmãs Lisbon, somadas à paixão desenfreada e puramente sexual que Lux nutre pelo descolado e malandrão Trip Fontaine (Josh Hartnett), estreitam-se cada vez mais à medida que o tempo passa, até que as garotas decidem libertar-se à maneira da irmã mais nova.

O enredo de “As Virgens Suicidas”, como se vê, é propenso a uma leitura tendenciosa. E é daí que se vê o quanto a direção de Sofia Coppola é cuidadosa: os pais das Lisbon, por exemplo, nunca são retratados como os vilões da história – eles não são nada além de pais excessivamente superprotetores que não conseguiram se adaptar às novas ideologias e dedicam a suas filhas uma educação crua, arcaica, provavelmente a mesma educação que receberam no passado. A ótima interpretação de James Woods e principalmente de Kathleen Turner (totalmente despida do glamour de seus papéis rotineiros) ajudam o espectador a entender que não estamos falando de dois monstros, e sim de duas pessoas comuns que não estão preparadas para os avanços do tempo.

Uma cena representa bem a intenção de Coppola: ao descobrir que Lux passou a noite fora, a Sra. Lisbon “entende” que esta rebeldia foi influência dos discos de rock das meninas e força Lux a queimar todos os seus vinis, poupando apenas aqueles com canções mela-cueca, que falam do “amor puro” e exaltam o dito “bom comportamento”. Esta cena leva a outra que resume violentamente a história: confinadas a seu quarto, seu mundinho mítico e particular, as meninas trocam telefonemas com os garotos e nada dizem: apenas põem para rolar canções como Hello It’s Me, de Todd Rundgren e Alone Again (Naturally), de Gilbert O’Sullivan; canções que à primeira vista parecem falar do “amor puro” e exaltar o dito “bom comportamento”, mas que elas convertem os sentidos para expressar tristeza, saudades, solidão. Quem ficar inteiro a esta seqüência, ganhará o troféu de “Coração Mais Duro do Mundo Nerd” – prêmio que está atualmente na estante da casa do Benício. Hehehe!

Há, também, uma gama de trunfos técnicos em “As Virgens Suicidas”: a brilhante fotografia de Edward Lachman e a fabulosa trilha sonora incidental, composta pela dupla de franceses especializados em música eletrônica Air, exaltam um clima onírico, quase em tom de fábula, e este tom fica ainda mais carregado com alguns criativos maneirismos da montagem de Melissa Kent e James Lyons. Paralelamente, as atuações de todo o elenco nunca deixam a história fugir da realidade. É exatamente neste ponto que Sofia Coppola acerta em cheio: a trama de “As Virgens Suicidas” nunca chega a ser extremamente cruel, mas também não é fantasiosa. Este equilíbrio, que poderia se perder facilmente nas mãos de “n” diretores, marcou o estilo narrativo de Sofia e agora, dois filmes depois, transformou-se em sua marca registrada.

Como resultado final, Sofia Copolla converteu “As Virgens Suicidas” em um cruel e emocionante tratado sobre o doloroso processo de entrada à fase adulta e a conseqüente perda da inocência, ainda que seu olhar sobre esta perda seja (propositadamente) distante. Trabalho que definitivamente não é para qualquer espécie de público, mas que não faz esforço algum para mostrar que não há absolutamente nada de “sorte de principiante” aqui. Realmente… talento vem de berço. 😀

As Virgens Suicidas (Tìtulo original: The Virgin Suicides) / Ano: 1999 / Produção: Estados Unidos / Direção: Sofia Coppola / Roteiro: Sofia Coppola / Baseado no romance “The Virgin Suicides”, de Jeffrey Eugenides / Elenco: James Woods, Kathleen Turner, Kirsten Dunst, Josh Hartnett, Scott Glenn, Michael Paré, Danny DeVito, Hanna R. Hall, Jonathan Tucker, A. J. Cook, Leslie Hayman, Chelse Swain, Robert Schwartzman / Duração: 97 minutos.

Os Extras do DVD:
FORMATO DE TELA: Widescreen (4×3) / LEGENDAS: Inglês, Português e Espanhol / ÁUDIO: Inglês Dolby Digital 5.1, Português e Espanhol Dolby Surround 2.0 / EXTRAS: Trailer; Bastidores; Clip; Galeria de Imagens.

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