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Daria para resumir tudo numa única pergunta: será que o Orlando Bloom andou tendo aulas de interpretação com o Keanu Reeves? Talvez com o Vin Diesel? Porque, sejamos sinceros: apesar das qualidades evidentes, Cruzada, o novo filme de Ridley Scott (que a distribuidora insiste em chamar, em todo o material de divulgação, apenas de “o diretor deGladiador“), não passa de uma película mediana graças ao seu protagonista – absolutamente apático, sem emoção, sem carisma, sem graça. E, principalmente, sem despertar qualquer emoção do público – que, numa história como esta, deveria entrar na pele do personagem e chorar, sofrer, lutar com ele. Torcer por ele. Mas é impossível sentir qualquer coisa por este… Balian.
E o pior é que “Cruzada” tem ótimos momentos, a começar pela direção segura de Scott – que, digam o que quiserem os seus detratores, continua em ótima forma – e pela belíssima fotografia. O roteiro deWilliam Monahan, tão elogiado pela crítica americana quando da estréia da fita por lá, não é assim tão maravilhoso, mas é bem amarradinho e funciona bem. E o grande trunfo da história está mesmo nos excelentes coadjuvantes. Tudo bem que Liam Nesson, na pele do pai do personagem principal, mal aparece. Mas, mesmo com seu pouquíssimo tempo de cena, já apaga completamente a presença de Bloom. O mesmo acontece quando nosso eterno Legolas contracena com seu par romântico – Eva Green, preferida do Zarko, interpretando a sofrida princesa Sybilla – ou com o excelente Jeremy Irons (Tiberias, braço-direito do Rei deJerusalém).
No entanto, chega a ser constrangedora a sequência na qual Balian é apresentado a Balduíno IV, monarca da Terra Santa. Mesmo passando todo o tempo mascarado e encapuzado dos pés à cabeça graças à lepra do governante, um irreconhecível Edward Norton desfila o talento habitual e, além de engolir Bloom em cena, simplesmente rouba o filme. Ao nosso elfo de plantão (que não é o Emílio), só resta se conformar com os beijos de Eva Green e com o fato de que… bem, ele não usa nenhum arco e flecha desta vez.
A história, adaptada com relativa fidelidade (muito mais do que estamos acostumados a ver em Hollywood, aliás), conta a odisséia de um ferreiro francês (Bloom, exatamente como Will Turner, seu personagem em Piratas do Caribe) que acaba sendo encontrado por um nobre, o Godfrey (Neeson) em seu caminho para Jerusalém. Lá, ele e seus homens vão ajudar o Rei a manter a frágilpaz firmada com Saladino (Ghassan Massoud), o líder dos muçulmanos, expulsos décadas antes daquela terra que, para eles, também é santa (notou a semelhança com o que acontece hoje em dia?). Mas os caminhos de Balian e Godfrey não se cruzaram à toa e não demora para que o conde revele ser o verdadeiro pai do jovem. Depois de ter perdido recentemente o filho e a esposa, Balian acaba, um tanto resignado e cheio de dúvidas, embarcando na jornada ao lado do paizão. Seuobjetivo? Garantir a salvação da alma da mulher morta.
No entanto, a reunião de família dura pouco: numa emboscada preparada pelos homens do bispo dos arredores, Godfrey acaba sendo mortalmente ferido e não resiste, antes mesmo do embarque para Jerusalém. Então, Balian assume seu exército, suas terras e sua missão: manter a paz e proteger os indefesos a qualquer custo. De ferreiro, Balian torna-se cavaleiro. E vai ter que enfrentar a intolerância de templários como Guy de Lusignan (Marton Csokas) e Reynald (o ótimo Brendan Gleeson, de Tróia e Coração Valente) que, além de não aceitarem sua origem humilde, ainda consideram os muçulmanos como “infiéis” e não vêem a hora de poder entrar em guerra direta para massacrar os seguidores de Alá – cujo exército, no entanto, é consideravelmente maior e cuja paciência é consideravelmente melhor. A paz está ameaçada de fato.
O tema anda em alta – basta vermos o assunto que aborda o segundo livro da série Angus ou mesmo o recente álbum conceitual do Angra, Temple of Shadows. E são claras as alegorias de Scott ao criticar a crise de intolerância no Oriente Médio. Teria tudo para ser um filme excelente. Mas trata-se de uma trama 100% calcada nos conflitos internos do personagem principal – e é por isso que eu digo que, sob certa ótica, dá para dizer que Orlando Bloom estraga o filme. Ele pode ser bonitinho, vá lá. Mas precisa desapreender aquele “olhar de paisagem” celebrizado pela Camila Morgado em Olga. Aliás, a pergunta que não quer calar é: será que ele só vai fazer filmes épicos/de época daqui para frente ou teremos a oportunidade de vê-lo de jeans e camiseta em algum momento?
Cruzada (Título original: Kingdom of Heaven) / Ano: 2005 / Produção:EUA / Direção: Ridley Scott / Elenco: Orlando Bloom, Eva Green, Liam Neeson, Jeremy Irons, Edward Norton, Brendan Gleeson
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