|
Desde que recebi a notícia da morte de Will Eisner, um dos maiores nomes das Histórias em Quadrinhos de todos os tempos, parece que entrei numa máquina do tempo que me transportou para o agora distante ano de 1997, quando tive a honra e o privilégio de conhecer o mestre pessoalmente.
Era o mês de julho e eu estava chegando na cidade de San Diego, Califórnia, para participar da San Diego International Comic-Con, principal feira de quadrinhos dos Estados Unidos. Confesso que estava meio atordoado porque este simpático nerd que vos escreve estava realizando vários sonhos pessoais em apenas um dia: viajar de avião, conhecer os Estados Unidos e, de quebra, participar de uma feira de quadrinhos como profissional da área!
Logo depois do check-in no hotel, fomos direto para o Centro de Convenções de San Diego. Horas e mais horas depois, paramos para um lanche no restaurante do Centro de Convenções – e eis que, de repente, um voz grita ao fundo: ” BETI, BETI!”. Era alguém que chamava a minha Diretora Editorial, Elizabete di Fiore. E este alguém era Will Eisner.
Beti e Eisner tinham desenvolvido um profunda amizade depois de encontros em feiras e exposições pelo mundo. E lá estava eu, sendo apresentado para um dos meus ídolos. Descobrimos que ele estava no mesmo hotel que nós e imediatamente marcamos de jantar todos juntos.
O engraçado é que, lembrando deste jantar hoje em dia, percebo que Will Eisner conversou sobre tudo, menos sobre quadrinhos. Mas, em compensação, descobri um paixão secreta do velho mestre: um lugar chamado Brasil. Eisner era um admirador do nosso país – e esta paixão já era folclórica em sua família.
Seu filho John, que o acompanhava naquela noite, nos confessou rindo que o pai perdia horas escrevendo cartas para jornais e revistas americanas que publicavam matérias com erros sobre a cultura e o povo brasileiros. O próprio Eisner contou que, quinze dias antes, tinha ligado no meio da noite para uma estação de TV que tinha acabado de exibir um filme onde o português não era falado por essa bandas.
Fomos reencontrá-lo dias depois, na entrega dos prêmios que levam o seu nome, os Will Eisner Comic Industry Awards. Naquela noite, Frank Miller (sim, aquele mesmo), disse em um discurso que não ligava muito para ganhar prêmios, mas que ligava muito quando o assunto era ganhar prêmios que levassem o nome Will Eisner.
Na tarde chuvosa de 4 de janeiro de 2005, senti-me um privilegiado. Não porque conheci um dos maiores artistas do nosso tempo, mas sim porque conheci um homem inteligente, cheio de vida e muito gente boa… Descanse em paz, Sr. Eisner.
Leia mais:
:: Conheça AVENIDA DROPSIE, a última obra de Will Eisner
:: Saiba mais sobre O CAVALEIRO ANDANTE, outra belíssima obra de Eisner
* Paulo Maffia é jornalista e trabalha com as publicações Disney da Editora Abril
|