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Sim, eu estava lá. "EU FUI", é o que diz a minha camiseta. No meio de um monte de garotas em roupas curtinhas, rapazes sarados e dispostos a faturar qualquer uma e muita gente tomando cerveja (e fumando uns "bagulhos" aqui e ali, deitados na grama), este nerd que vos fala vagou pela enormeeeeeeeeeee Cidade do Rock para registrar os momentos mais bizarros (e divertidos) dos 7 dias de festival. Vamos a eles:
12/01/2001 – Sexta-Feira
– Os três minutos de silêncio que a organização planejava para a abertura do festival "Por Um Mundo Melhor" foram pelo ralo. Um sonoro "filho da puta" vindo da turma do fundão surpreendeu e arrancou risos de milhares de pessoas com lenços brancos nas mãos. Depois, um inspirado piadista lançou a melhor: "Aí, todo mundo brincando de vaca amarela". No meio de quase 150.000 pessoas tentando ficar em silêncio, teve um efeito sensacional, acreditem! 😛
– Tudo bem, o Gil é bacana, o Milton é um cara lesgal, mas ninguém conseguiu bater o Sting nesta primeira noite. Luzes, explosões, uma puta super produção e os grandes clássicos do The Police. Imaginem um cara de óculos e cavanhaque sozinho no meio de uma multidão, tendo um verdadeiro orgasmo quando começaram os primeiros acordes de "Every Breath You Take". Era eu.
13/01/2001 – Sábado
– Transformando seus clássicos nos rocks pesados que todo mundo estava esperando ouvir, a Cássia Eller provou ser a melhor roqueira que o Brasil já produziu desde a Rita Lee. Coçou o saco, cuspiu e mostrou os peitos pro público enquanto tocava "Come Together", dos Beatles, com os percussionistas da Nação Zumbi. Cássia: você foi duca.
– Caraca, o show da Fernanda Abreu foi um pé no saco com kichute. Cheio daqueles funks sem graça, a coisa só deslanchou quando ela resolveu chamar o Evandro Mesquita para "Você Não Soube me Amar", o clássico absoluto da sensacional Blitz.
– Uma das bandas que eu mais queria ver, o Foo Fighters não decepcionou. Tudo bem, eles não tocaram "Generator", mas o Dave Grohl (vocalista) entrou num duelo de bateria com o Taylor Hawkins (o baterista original da banda) e até dançou com os fundilhos da bermuda rasgados. Rolou até "Parabéns pra Você" pro cara em pleno palco.
– O R.E.M. botou pra foder naquele que, na minha opinião, foi o melhor show do festival inteiro. O careca Michael Stipe (o vocalista) detonou: super simpático, soube conquistar a galera mesmo visivelmente envergonhado por ter aquele mundo de gente na sua frente. Dava vontade até de colocar o cara na mochila e levar pra casa. Depois de "Losing My Religion", que toda a Cidade do Rock cantou juntinha (o Stipe mal acreditava), foi sensacional dançar com um clássico mais do que nerd: "It’s the End of The World as We Know It (and I Feel Fine)."
14/01/2001 – Domingo
– Bwahahahahahahahahahahahahaha! Nada supera a cara do Carlinhos Brown sendo impiedosamente atacado pelas garrafas d’água atiradas pelos fãs. Eu estava lá e posso dizer: o mano já vinha sendo hostilizado pelos metaleiros grudados na grade de proteção, esperando o show do Guns n’ Roses. Era "baiano filho da puta" pra lá e "vai embora, cantor de axé" pra cá. Mas o Brown acabou ganhando a antipatia da galera inteira quando gritou para os caminhões-pipa que tentavam aplacar o calor do público: "Vamos parar de jogar água aí, está dispersando a atenção do meu show". Caiu a casa, e galera foi impiedosa com ele. Nem adiantou "Eu sou da Paz" ou "Pode jogar o que quiser que nada me atinge". No final, acabou atingindo sim.
– O show do Ultraje valeu pacas o ingresso, meu. A banda brasileira mais nerd de todos os tempos tocou todos os seus grandes sucessos (incluindo a minha preferida, "Nós Vamos Invadir Sua Praia") e ainda arriscou o cover de "Paranoid", do Black Sabbath. No final, fizeram um bundalelê pra galera. Vai ter bunda branca assim lá em São Paulo.
– O Oasis foi a coisa mais escrota que já vi ao vivo. Puta showzinho burocrático, sem graça nenhuma. Parecia até que eu estava ouvindo o CD dos ingleses, meu. Os maninhos nem reagiam quando o público cantava animadamente seus maiores sucessos. Fiquei com muito sono e só. Blergh pra eles.
– Ah, nem tem muito o que falar sobre a apresentação do Guns. A banda do Axl é super competente, tem um guitarrista que fala português (Robin Flick, ex-Nine Inch Nails, que no momento mais insólito do festival tocou e cantou "Sossego", do Tim Maia) e um com um balde de KFC na cabeça (o Buckethead, um mascarado cujo rosto lembrava o Megatron). O líder do Guns pode não estar em plena forma, vá lá (barriguinha até eu tenho). Mas que ele estava em sintonia perfeita com o público, isso estava. Uns críticos babacas andaram dizendo que ele falou demais e cantou de menos. Nada disso. Ele soube emocionar a galera. Tinha uns sujeitos do meu lado chorando (de verdade) enquanto ele declarava seu amor ao Brasil e à sua secretária pessoal, uma simpática brasileira.
18/01/2001 – Quinta-Feira
– Rapaz, eu sei que sou comprometido (e minha noiva é brava, viu?), mas um aviso aos solteiros de plantão: tinha mulher saindo pelo ladrão neste dia. Um prato cheio para quem gosta de ninfetas (como um certo nerd que eu conheço, cujo nome eu não quero dizer, mas é um dos meus sócios na Arca – sendo que somos apenas dois).
– Tinha umas pivetas do meu lado achando que eu era meio boiola, mas adorei o show do Five. Sabia todas as letras, e pirei o cabeção quando eles cantaram "Battlestar", música com a abertura do seriado "Battlestar Galactica" sampleada.
– Olha, não sei se ela tava cantando com playback ou não (afinal, quem prestar bastante atenção no CD vai perceber que ela não canta porra nenhuma mesmo, porque quem segura a barra são as duas backing vocals), mas foi místico ver a Britney Spears ser vaiada quando estampou a bandeira americana no telão. Die, american bastards (parafraseando Eric Cartman)!
– O *N Sync foi responsável pela apresentação mais nerd do Rock in Rio. No meio de duas músicas, colocaram um divertidíssimo vídeo parodiando o programa "Who Wants to Be a Millionaire" (atração americana que deu origem ao "Jogo do Milhão", do tio Sílvio Santos). O Lance (o loirinho de olho azul) participava do programa e estava prestes a ganhar um milhão de dólares. Os outros quatro assistiam de casa. Aí, veio a pergunta: "Qual destes personagens não tem nenhuma relação com o seriado Pokémon?". As alternativas eram: a) Jigglypuff; b) Squirtle; c) Frodo ou d) Pikachu. A resposta, obviamente, é "C", já que Frodo é o hobbit protagonista de "O Senhor dos Anéis".
Sem saber a resposta, Lance liga para os amigos em casa, que fazem uma puta confusão e mais atrapalham do que ajudam. Desesperado, Justin (o namorado da Britney) pede a ajuda do público da Cidade do Rock, que deve gritar a resposta certa para Lance. Ele acerta e todo mundo fica feliz com uma chuva de papéis brancos e verdes que bombardeiam o público. Ducaralho, só isso que tenho a dizer. Ainda no telão, os caras colocaram imagens do "Matrix", enquanto dançavam uma música meio futurista, com roupas que brilhavam no escuro.
19/01/2001 – Sexta-Feira
– Não sou exatamente um fã do estilão de heavy-metal thrash que o Sepultura faz, mas o show dos caras foi demais. O mais bacana é que eles começaram a apresentar o conceito do novo disco, "Nation", que lança uma nação fictícia chamada "Nação Sepultura". O hino deste país utópico no qual todos os fãs de metal são bem-vindos é "Valtio", composto pelos finlandeses do Apocalyptica. Lindo mesmo.
– Tanto falaram, tanto recomendaram, e no final o show do Queens of The Stone Age foi uma merda sem tamanho. O som dos caras é bacana, ótimo para se ouvir no carro ou então quando se está completamente chapado (como eu já nasci de porre, curti pacas). Mas no palco eles se perderam. Não deram nem "oi" nem "tchau", não se apresentaram e nem sequer introduziram suas músicas. Porra, ninguém ali fazia idéia de quem eles eram, custava um pouco de educação com o público, cacete? O solo de guitarra de mais de 20 minutos no final foi das coisas mais chatas que já vi. E pelamordedeus: o baixista (Nick Olivieri) completamente nu no palco, que treco mais nojento (Nota: uns e outros comentaram que se sentiram humilhados pelo tamanho do "instrumento" do dito cujo. Ainda bem que eu estava longe e nem pude ver direito).
– O Rob Halford, ex-vocalista do Judas Priest, ganhou os fãs logo na primeira música. Heavy metal clássico, a la Judas e Iron Maiden (NWBHM, ou New Wave of British Heavy Metal). E o visual do careca era demais: roupa toda de couro com tachinhas. Parecia um super-herói, uma espécie de Motoqueiro Fantasma sem fogo na cabeça. Numa boa: precisava mesmo ser um herói para segurar a onda daquele calor todo com uma roupa de couro.
– Os metaleiros que curtem Iron Maiden (ou seja: 99% deles) sabem muito bem o que é um show do grupo ao vivo: puro Iron Maiden. E ponto final. O Bruce Dickinson, de volta aos vocais, tava demais, pulando de um lado pro outro, botando pra quebrar e mexendo com o público. Os três guitarristas (Dave Murray, Janick Gers e Adrian Smith) pareciam três cavaleiros do Apocalipse, liderados pelo baixista Steve Harris. E apareceu até o Eddie no palco. Depois de cantar "Fear of the Dark", não precisava de mais nada não.
20/01/2001 – Sábado
– O mais nerd de todos os cantores, Paulo Ricardo (ex-RPM e atual cantor de trilha sonora de novela mexicana, fã de Homem-Aranha e Homem de Ferro), deu o ar de sua graça no show dos Engenheiros do Hawaii. Cantou "Rádio Pirata" e nos fez suspirar de saudades da época que ele cantava o bom e velho rock ‘n roll.
– Ao ver o Kid Abelha no palco, parecia que eu estava num videokê. De 10 músicas, 11 eram verdadeiros hits dos cantores de chuveiro que se aventuram na frente das televisões com legendas (e fundos de tela sem o menor sentido). "Fixação", "Na Rua, Na Chuva, na Fazenda" e a óbvia "Pintura Íntima", do refrão "fazer amor de madrugada/amor com jeito de virada". Precisa dizer mais?
– Nooooooooooooossa! O Neil Young é a cara do Wolverine, meu! Além do fato de também ser canadense, ele é velhusco, expressão de raivoso, tem umas costeletas suspeitas, tava de chapéu de cowboy, camiseta e calça jeans. Só faltava o charutão. Fora isso, a guitarra dele estava selvagem. Nos solos, ele parecia que ia engolir a bichinha, de tão empolgado que estava. Elítico.
21/01/2001 – Domingo
– Sou obrigado a admitir que O Surto, que eu achava que era só "a banda da música do cabeção", me surpreendeu. Os caras são muito divertidos, têm uma puta pegada de palco. A versão deles para "Californication" se transformou em "Triste, Mas Eu Não Me Queixo", muito engraçada mesmo. E eles subiram muito no meu conceito quando colocaram a dupla de emboladores Caju e Castanha logo na abertura do show, seguida de um solo do tema de abertura de "Missão Impossível". Claro que rolou "A Cera" (a do "me pirou o cabeção", que aliás tocou duas vezes), mas não estragou em nada uma performance muito empolgante.
– Deu vontade de enfiar minha cabeça num buraco quando começou o show sem-vergonha do Capital Inicial. Putz, era escrito e escarrado o CD "Acústico MTV", com Kiko Zambianchi e tudo! Deus meu, cadê o Capital de "Veraneio Vascaína" e afins?
– Encerrando o Rock in Rio, chegaram ao palco os doidões do Red Hot Chili Peppers, que, como em todo bom episódio dos Simpsons onde aparecem, se mostraram uns rapazes muito divertidos ("Queremos Chili-Willi", já dizia o Barney). Graças a Deus, não ficaram só naquela punhetação que são as músicas do "Californication", e mandaram ver em "Give it Away", "Under the Bridge" e até "Search & Destroy", do The Stooges (grupo pré-punk do Iggy Pop).
Você deu um pulinho na Cidade do Rock? O que você achou dos shows? Vamos trocar umas idéias: escreva para elcid@a-arca.com.
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