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Artigo adicionado em 30/10/2002, às 01:42

O QUE DEU NA CABEÇA DO JUSTIN ACHILLI?
Responsável pelo desenvolvimento de “Vampire: The Masquerade” pira ao dar um fim trash ao clã Ravnos Vampire: o que mais ainda falta acontecer? Antes de mais nada, um recado aos mais experientes: esta matéria é dedicada especialmente aos mais de trinta e-mails que recebi desde o fim da PQP (a tão afamada Puta que Pariu!), […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

Cosquinha no pé não!

Vampire: o que mais ainda falta acontecer?

Antes de mais nada, um recado aos mais experientes: esta matéria é dedicada especialmente aos mais de trinta e-mails que recebi desde o fim da PQP (a tão afamada Puta que Pariu!), perguntando sobre o polêmico desaparecimento do clã Ravnos. Isso mesmo: caso você tenha sido pego de surpresa pela notícia, o antidiluviano (vampiro de 3ª geração que fundou o clã) da linhagem Ravnos simplesmente foi para a casa do chapéu…pelo menos, de acordo com a cronologia oficial do universo "World of Darkness", no qual ainda estão incluídas as ambientações "Werewolf", "Mage", "Wraith" e "Changeling".

Vamos às explicações: a história toda aconteceu logo no começo do ano 2000, no livro "The Time of Thin Blood" (ou "A Era do Sangue Fraco", que fala dos mais recentes acontecimentos do mundo vampírico rumo ao Gehenna). O que acontece é que, certo dia, o bom e velho Ravnos acordou de repente de seu estado de Torpor em algum lugar da cidade de Bangladesh, na Índia. Cheio de fome, o foderoso vampiro ainda se levantou completamente fora de controle por causa de um estado de frenesi, causado pelos inúmeros pesadelos que o nível 10 de Chimestry (Quimerismo) lhe causava (ou você achou que as disciplinas só tinham lados bons?).

A grande coincidência foi quando, nas redondezas, provavelmente sentindo a presença de um ser de tamanho poder finalmente de pé, três vampiros orientais (os chamados Kuei-jin, cujas regras são explicadas detalhadamente em "Kindred of East"), com poder equivalente aos anciões de 4ª geração ocidentais, também acordaram e resolveram ver do que se tratava. Como o Ravnos estava morto de fome e para antidiluvianos só basta sangue de vampiros recheados de poder, ele resolveu fazer uma refeição com gosto oriental. E o pau comeu (quem acha que três contra um é covardia nem imagina o estrago que um antidiluviano pode fazer).

A forçada de barra aconteceu quando os Kuei-jin resolveram chamar uma criatura monstruosa chamada Typhon para encobrir o Sol, que já começava a dar sinais de aparecimento. O quebra entre os quatro acabou durando mais três dias (?), quando finalmente os magos tecnológicos conhecidos como Technocracy se tocaram da presença de criaturas tão poderosas trocando socos e pontapés e perceberam que a destruição que eles vinham causando seria um chamariz perfeito para os mortais da área (como diz um amigo meu: e eles demoraram TRÊS dias pra se tocar?). Durante estes três dias, todos os Ravnos do mundo entravam em Frenesi automático todas as vezes que encontravam um da espécie, cessando a batalha apenas quando um dos dois morria.

Para dar fim à batalha, nada mais singelo e discreto do que…uma bomba atômica. Isso mesmo: toda a área acabou bombardeada por uma bomba de nêutrons misticamente modificada para atingir somente as criaturas sobrenaturais. Resultado: todos os vampiros, lobisomens, magos, espíritos, fadas e afins que pudessem estar passeando pelo local foram simplesmente dizimados. Com a morte instantânea dos vampiros orientais, o tal do Typhon voltou para as profundezas de onde saiu e o Sol voltou a brilhar. Como era de se esperar de uma criatura ancestral e que é cria indireta do próprio Caim, o Ravnos agüentou a barra e se levantou, ainda enraivecido. Foi quando os tecnocratas sacaram que a barra deles ia sujar se o vampiroso percebesse que eles tinham sido os responsáveis pelo ataque e resolveram finalizar o serviço. O que acontece então é mais do que bisonho: os magos usam um satélite para concentrar os raios solares num feixe direcionado diretamente contra o Ravnos…e o fundador de toda uma linhagem vira poeira. O resultado? Além de uma bagunça generalizada na cabeça dos fãs do jogo, o clã Ravnos agora é uma bloodline (linha de sangue) e os membros de sua espécie se tornaram dificílimos de serem encontrados, para alegria dos Gangrel de plantão.

Mas, mas…

Tá, tá, eu sei que é jogo duro de engolir essa maluquice toda. Muitos jogadores já me perguntaram: "mas havia mesmo necessidade de mandar um antidiluviano para o beleléu?" Pessoalmente, o tio Cidão aqui acha que não, mas não é o pensa o americano Justin Achilli, editor responsável pelo desenvolvimento do universo "Vampire: The Masquerade" dentro da White Wolf.

Segundo ele, a decisão de matar um personagem deste porte surgiu quando sua equipe trabalhava no desenvolvimento da edição revisada do módulo básico do jogo. "Senti que o clima deste novo livro estava muito mais tenso. Sempre falamos tanto a respeito da Gehenna (fim dos tempos) e da Jyhad (guerra entre os vampiros), mas nunca tínhamos visto nem sinal destes eventos em nossos livros oficiais", afirmou Achilli em uma mensagem postada no site oficial da editora. Foi quando ele resolveu reafirmar esta sensação de medo e tensão no World of Darkness criando um evento que pudesse abalar as estruturas de todos os jogos: a morte de um antidiluviano. "O conceito destes personagens é tão central ao jogo que eliminar um deles teria graves repercussões no mundo no qual se passa a história. É um exemplo concreto do mundo desabando, provando que o fim dos tempos se aproxima".

"Mas por que o Ravnos, seu filho da puta?"

Essa foi a pergunta de um dos meus melhores amigos, um verdadeiro aficionado pelos vampiros de ascendência cigana. Na verdade, Achilli conta que chegou a eles por meio de um processo dedutivo. "Antes de tudo, queria uma linhagem com alguma relação com o Oriente, para enfatizar os embates entre os vampiros ocidentais e orientais". Ele explica ainda que estes eventos deveriam acontecer num grande centro populacional, para terem o impacto desejado. "Se o antidiluviano assassinado estivesse na Antártida, o fato poderia ser ocultado com mais facilidade, e não era essa a idéia".

Por último, o clã escolhido não poderia alterar drasticamente as fundações do mundo "Vampire". Exatamente por isso, clãs como os Ventrue ou qualquer um do Sabbat causariam uma reformulação radical demais nos livros que viessem a seguir. "Logicamente, tive que optar por um dos clãs independentes, que me dariam o efeito desejado. Acabei optando pelo Ravnos porque o clã acrescentou muito pouco à ambientação do mundo vampírico". Aos xingamentos dos fãs (que incluem meu grande amigo Ravnos, apelidado assim exatamente pela adoração ao clã), Achilli responde dizendo que eles nunca representaram fielmente nenhum dos mitos vampíricos tradicionais. "E boa parte dos jogadores nunca chegou a interpretá-los da forma correta, como personagens de um jogo de horror. Claro que existem exceções, mas a regra se mostrou mais forte". Como última razão, ele cita sua disciplina-base, Chemistry, facilmente reduzida a uma "bobagem" se mal-utilizada, segundo o editor explica, lembrando ainda que chegou a pesar de igual para a igual a hipótese de eliminar do jogo seu clã preferido, os (desgraçados) Ventrue. "Mas o jogo precisa deles", afirma.

Sobre a desastrada forma pela qual o antidiluviano foi mandado para as cucuias, Achilli coloca a culpa nas manchetes dos jornais "Na época, o assunto do momento eram os testes nucleares na região do Paquistão e da Índia. Bingo! Uma gigantesca batalha entre Assamitas marchando sobre Bangladesh chamaria atenção demais", diz, tentando nos convencer de que uma noite que durou três dias e a explosão de uma bomba atômica não chamaram "atenção demais". E ele completa: "O Ravnos quase sobreviveu. O que atrapalhou foram as constantes alucinações causadas pelo elevado nível de Chemistry, que viraram sua cabeça". É isso. Acabou.

Os jogadores, no entanto, não concordam. Muitos já me disseram pessoalmente que estes eventos serão simplesmente ignorados em suas futuras aventuras. Você concorda? Que antidiluviano deveria ter sido mandado pro espaço no lugar do Ravnos e porquê? Enviem suas sugestões para elcid@a-arca.com!

Ah, e só pra esclarecer…
A disciplina Chemistry (Quimerismo) no nível 10 chama-se Reality (Realidade). Com ela, o mestre das ilusões que fizer uso deste nível da disciplina consegue aprisionar sua vítima numa espécie de mundo alternativo onde tudo (de sua aparência a todas as leis da física) é regido pelas vontades do ilusionista.


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