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Artigo adicionado em 22/10/2002, às 04:06

O GÊNIO GENTE BOA
Conheça um pouco da carreira do escritor britânico Neil Gaiman Ilustração da capa da primeira edição de Sandman O cara parece aquele tio que só surge do nada em ano bissexto, mas que é a alegria de toda criança porque traz um monte de doces e leva o sobrinho pra andar de moto. Este é […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

Tenha medo do Dave McKean, fala sério

Ilustração da capa da primeira edição de Sandman

O cara parece aquele tio que só surge do nada em ano bissexto, mas que é a alegria de toda criança porque traz um monte de doces e leva o sobrinho pra andar de moto. Este é o Neil Gaiman, o roteirista mais gente boa, mais bacana do mundo dos quadrinhos. 

Mas pera lá: o nome dele pode ser esse, mas ele não é da turma do Clóvis Bornay não…(embora certos boatos…) O cara é um conceituado escritor inglês, muito bem casado, três filhos e dois gatos! El Cid filhote de aracnídeo clonado! E você vai ficar falando sobre a família do cara? Que merda que ele fez na vida? Tudo começou quando ele e Dave McKean foram descobertos pela DC, depois do excelente trabalho em Violent Cases, publicado pela editora inglesa Titan. A editora da DC, Karen Berger, pediu ao inglês que escolhesse um personagem para ser reformulado, para criar um novo público para a editora.

E foi isso que ele fez. Simplesmente tomou o nome de um personagem fracassado de Jack Kirby dos anos 40 e criou um dos personagens adultos mais vendidos do mundo, que atraiu a atenção de todos para o fato de que os quadrinhos adultos existem, e que deu origem a linha Vertigo! Gaiman é o modesto (e genial) criador de Sandman! Creio eu que toda a galera já sabe quem é o Sandman, mas eu vou dar uma pincelada de leve, só pra não deixar os novatos boiando como o Fanboy quando cai na água: o tal do Sandman é, na verdade, Morfeus, também conhecido como Dream, ou por uma porrada de outros nomes.

Dream faz parte de uma família ancestral conhecida como os Eternos, da qual faz parte, entre outros, a sua graciosa irmã, a Morte (se esta fosse a Morte da Marvel, até entenderia porque o Thanos se apaixonou por ela – a menina é uma gracinha!). Um grupo que estudava magia negra, ocultismo e o cérebro do Maluf (que é indecifrável) aprisionou Morfeus em 1916,e só em 1988 ele conseguiu se libertar. E a partir daí… Gaiman é um mestre da narrativa onírica, que, para aqueles que não curtem a honrosa língua do Professor Pasquale (do comercial do Mc Donalds), quer dizer irreal, quase como num sonho. Ler uma história do inglês boa praça é isso: viajar muito, se sentir no meio de um grande sonho, como se tivesse fumado um dos cigarros do Marcelo D2. Mas não é só isso: ao mesmo tempo que sabe ser sensível e esotérico, Neil sabe também abordar a loucura e a violência. Tudo do mesmo jeito genial de sempre.

Com a saga do Mestre dos Sonhos , Gaiman alçou o sucesso, papando tudo quanto foi prêmio do universo dos quadrinhos, e se tornou um dos mais conceituados autores do momento. Iniciada em 1990, a saga de Sandman teve um fim (inesperado) há mais ou menos dois anos, no número 69, nos States, com a morte de Morfeus, durante o arco de histórias conhecido como The Kindly Ones. No arco de histórias seguinte, The Wake, que se encerrou no número 75 (por sinal, também o último número da revista), Gaiman trouxe á tona o substituto de Morfeus, seu filho, que, apenas a título de curiosidade, fez uma participação mais do que especial numa das histórias desta nova Liga da Justiça de Grant Morrison (e esta história já saiu no Brasil, na revista Os Melhores do Mundo, da Editora Abril).

Sim, ela é a cara da Siouxsie, mas não parece em nada com aquela criatura HORRENDA do EIRPG

A graciosa senhorita Morte

Mas foi com o nosso branquelo sonhador que Gaiman chegou a fazer duas excelentes mini-séries solo com a Srta. Morte. Death:The High Cost of Living foi um sucesso, que logo obrigou o good guy do Gaiman a entrar de cabeça na segunda mini-série, Death: The Time of Your Life , com desenhos delicados e detalhados do sensacional Chris Bacallo (Motoqueiro Fantasma 2099, Generation X). Nas duas, Gaiman mostra mais uma vez sua sensibilidade, abordando a morte como mais uma etapa da vida, sem deixar de lado o amor (sem preconceitos e diferente do que a nossa sociedade machista conhece) e a crítica social. Corra atrás num destes sebos requenguelas da vida e você pode achar as duas por um preçinho bem camarada… Os coadjuvantes de Sandman, que ficaram tão famosos quanto o próprio clone do Edward Mãos-De-Tesoura, ganharam um título próprio, que é um grande sucesso nos EUA: The Dreaming, que saiu durante algum tempo no Brasil pela finada Tudo em Quadrinhos. Mas nem só de Sandman vive Neil Gaiman.

Na Vertigo, o cara conseguiu liberdade pra criar, e fez nascer de sua mente a sensacional mini-série Orquídea Negra (Black Orchid), numa parceria com o artista (que mistura desenho, pintura e colagem) Dave McKean, famoso capista das revistas de Morfeus. A mini-série é espetacular, e confirma a fama que Gaiman tem de criar excelentes personagens femininos. Aqui, a protagonista é uma garota que se descobre um ser meio humano, meio planta, e que acaba entrando numa jornada de auto-conhecimento para tentar entender sua verdadeira natureza. E ela cruza com a Hera Venenosa, com o Batman e só entende quem diabos ela é quando ela cai de cara no pântano de um certo Alec Holland, vulgo Monstro do Pântano (pós-Alan Moore). Tem até o Lex Luthor querendo capturar a mulher cor de violeta pra usar os poderes dela! A mini-série foi tão fudida que a DC transformou num título próprio, que também chegou a sair em terras tupiniquins, embora sem um pingo de regularidade, pela mais do que falecida Tudo em Quadrinhos (acho que eu já falei nisso, né?).

E ele fez mais, ah, se fez! O cara foi o responsável pelo meu segundo título Vertigo preferido: Livros da Magia (Books of Magic). O jovem nerd Tim Hunter, descendente de uma antiga linhagem de magos, cai de pára-quedas num mundo de magia e misticismo, descobrindo que ele tem poderes fabulosos, mas que não faz a menor idéia de como usar! Oberon, o rei das fadas e Titânia, sua rainha (saídos direto de ‘Sonhos de uma Noite de Verão’, de Shakespeare), são alguns dos coadjuvantes da mini-série. Vou falar uma coisa: me identifiquei de cara com o maluquete do Hunter! Sério! Ele é atrapalhado, cheio de problemas, e ainda tem de encarar um monte de seres místicos que ele só tinha visto em desenho animado! Uma pitada de humor, inocência, alguns bons toques de loucura e escuridão, e todo o lirismo e esoterismo típicos de qualquer coisa na qual este tiozinho ponha as patas! Livros da Magia foi outro sucesso que virou título mensal, e que também chegou a sair no Brasil pela…Tudo em Quadrinhos, claro!

Alguém aí sequer pensou que este cara, um poeta dos quadrinhos, pudesse escrever histórias de super-heróis? Não? Bem, então avisem o Spawn, que teve um número brilhantemente escrito por Mr.Gaiman. Mas a relação do súdito da rainha com o demônio cara de hambúrguer vai além desta história. Pois foi pelas mãos de Gaiman que entrou no universo do feioso a anja mais gostosona do céu e do inferno também: Ângela! A mini-série da ruivinha (que saiu aqui no Brasil pela Abril), com desenhos do dinâmico Greg Capullo, redefiniu o mundo criado por Mc Farlane, nos apresentando ao céu e à sociedade das anjas (Mas que merda! Disseram que anjo não tinha sexo! E aquelas minas de biquininho são o quê?).

Sim, ele é a cara do Robert Smith

O misterioso e hedonista Morfeus

Por fora, Gaiman ainda escreveu uma mini-série chamada The Last Temptation ( A Última Tentação), com o roqueiro malucão Alice Cooper (aquele do ‘Quanto Mais Idiota Melhor’), que acabou virando tema de um CD dele! Cooper fez as letras baseado na história de Gaiman (que moral que o cara tem, hein?). 

Agora, falamos, falamos e falamos feito doidos sobre Neil Gaiman, mas…e hoje em dia? O que ele tá fazendo da vida? O que ele quiser. O cara é tão conceituado que escreve quando e o que quiser. Sandman saía com peridiocidade indefinida, porque ele entregava o roteiro quando queria. Hoje, ele só trabalha nas histórias que ele considera legais pra escrever, como podemos conferir na sensacional história curta que ele mandou ver com desenhos de Simon Bisley em Batman Preto e Branco nº2 (ainda nas bancas!). Precisa muita liberdade pra escrever um lance criativo daquele, vai!!! Gaiman andou muito envolvido com outro projeto fora dos quadrinhos, chamado Neverwhere. É um roteiro de uma série de televisão em seis partes para a rede inglesa BBC. A série trata do seguinte: uma outra cidade de Londres vive abaixo dos pés dos londrinos. Nos subterrâneos, vivem mendigos, párias, monstros e assassinos, ignorados pela cidade lá de cima. Esta é Neverwhere. Muita loucura e delírio. A cara dele, né?

Este é o Sr. Neil Gaiman. Homem de família, um sonhador e um poeta… Um cara legal.


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