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Imagine-se num mundo onde tudo que você sabe é uma mentira. Mais do que isso: tudo ao seu redor é falso, e todos ao seu redor parecem nem sequer desconfiar de nada! Você é um dos poucos que acaba de descobrir a enlouquecedora verdade – a realidade está a um passo de você…e você acaba de descobrir como enxergá-la…
Isto é a Matrix? Não, isto é Kult.
Kult é um dos mais cultuados (desculpem, não resisti) sistemas de RPG de terror/horror do mercado – e também um dos mais difíceis de encontrar por aí. Criado na Suécia em 1991 por Gunilla Johnsson e Michael Petersén, acabou sendo traduzido para o inglês em 93 por uma obscura editora Metropolis.
Ambientação – Mas vamos ao que interessa, que a galera tem pressa: do que trata o jogo? Tudo começou com uma poderosa criatura de nome Demiurgo, que ninguém sabe ao certo o que ou quem é – pode ser uma criatura maior, de imenso poder, ou mesmo um de nós que, rebelado, conseguiu de alguma forma realizar seu intento. De qualquer forma: nós, seres humanos, vivíamos em harmonia com outras criaturas num plano paradisíaco chamado Metrópolis (que nada tem a ver com a cidade de Clark Kent e Lois Lane, por favor!). Eis que, em determinado momento desta pacífica existência e convivência, algo enfureceu o Demiurgo, que aprisionou nossa raça na chamada Ilusão: a Terra, onde viveríamos na ignorância total, sem desenvolvimento ou conhecimento suficiente para que saíssemos da eterna bárbarie – e sem saber o que existe ao nosso redor, nos outros planos.
Qual seria exatamente o motivo de nosso aprisionamento, isso nunca ficou bem claro: poderia ser porque o Demiurgo descobriu os clássicos defeitos da humanidade (cobiça, inveja, ódio…pequenas coisitas inerentes ao ser humano) e resolveu nos manter longe porque representávamos perigo para a perfeita harmonia dos planos. Ou então, o único perigo que ele teria visto na raça humana seria a nossa inteligência, que começava a representar perigo a medida que nos desenvolvíamos. Isso, nunca vamos saber.
Anyway…depois que fomos encarcerados, o fodão (leia-se Demiurgo, que em alguns momentos pode até mesmo ser interpretado como Deus) criou em Metrópolis os Archons (vistos por alguns como os anjos), servos que o ajudaram a manter-nos presos e sem desconfiar de nada. Mas aí…há 200 atrás, eis que o tal Demiurgo resolve desaparecer, sem deixar vestígios. E nestes últimos 200 anos, sem a sua interferência, a humanidade sofreu um boom de desenvolvimento cultural, tecnológico e cietífico, aumentando (e MUITO!) a cada dia o perigo de descobrirmos a verdade sobre esta enorme prisão.
Enquanto os pobres e deseperados Archons lutam entre eles para decidir quem será o novo Demiurgo, de modo a evitar a aproximação da Ilusão com outros planos de existência, Astaroth, irmão do Demiurgo original (e que poderia ser identificado como o Diabo, Lúcifer, Satanás, ou seja lá como você prefira chamá-lo) também prepara os seus peões. Regente da dimensão conhecida como Inferno, ele também criara uma horda para vigiar a humanidade: os Death Angels (vistos como os demônios da visão católica). E ele já prevê que estaríamos às portas do apocalipse, e que, como desaparecimento de seu irmão, as forças do Inferno seriam as únicas preparadas para impedir a libertação do ser humano.
No mundo de Kult, embora batalhem entre si, os Archons e Death Angels estão mais preocupados com suas próprias metas, esquecendo aí a rivalidade entre seus reinos, muitas vezes até se aliando uns aos outros pra chegar a este ou àquele objetivo – um conceito interessante, também partilhado pelo sistema In Nomine, da Steve Jackson Games.
Quanto aos seres humanos, somos todos imortais (como todas as criaturas superiores de outros planos), embora nada saibamos a este respeito): quando nossas almas abandonam nossos corpos (naquele ato conhecido como morte), elas partem direto para a dimensão do Inferno, onde os Death Angels se encarregam de nos torturar até que todas as lembranças que recuperamos ao "morrer" desapareçam, incluindo aí as de nossa última vida, para que possamos reencarnar numa nova vida e num novo corpo, mantidos assim presos a uma cadeia que aparentemente não tem fim. No entanto, nós ainda mantivémos uma inconsciente lembrança de Metrópolis, pois todas as cidades que construímos tentamos fazer ao máximo parecidas com ela…
E já que falamos de Metrópolis, os líderes da cidade infiltram em nossa sociedade, em nossos governos, religiões, seitas…os Lictors, representantes que cuidam para que cada vez mais sejamos mantidos na ignorância, sem imaginar nosso verdadeiro destino de direito. Além deles, outra sociedade curiosa são os Angelis (não, não é uma seita em homenagem ao criador da Rê Bordosa), uma antiga sociedade que se separou da Igreja Católica e que sabe que os anjos são seres tão reais quanto nós, seres humanos, mas que é responsável por nos manter ignorantes quanto a isso também. Só que, quando a Igreja descobriu que os caras tavam metidos com seres ocultos, anjos e demônios, botou a Inquisição nas costas deles, e por isso hoje em dia eles são uma sociedade mais do que secreta, cujo único objetivo é capturar e aprisionar os anjos caídos que apareçam por algum motivo na Terra.
Já em se falando dos planos de existência, além de Metrópolis e do Inferno, temos vários outros, com destaque para O Mundos dos Sonhos, um lugar mágico onde nós podemos moldar nossos anseiso e desejos como quisermos. Em se falando de jogos de terror, o pessoal já sente falta dos clássicos vampiros e lobisomens…Bem, eles estão presentes no enorme bestiário do Kult, que traz também hordas de seres incomuns, incluindo demoníacas criaturas que você nem gostaria de imaginar, e que estão por aí não só em Metrópolis ou no Inferno, mas também em nosso mundo dos sonhos ou mesmo por aqui, rondando nossas casas!
Roleplaying – Muita gente que já teve contato com o Kult diz que ele é um sistema de horror sem igual, pois te permite ir do mais terrível horror psicológico até um jogo de intriga e conspiração assustador (que supera as redes de intriga do Vampire, dizem alguns). Suas correntes narrativas pelas quais um mestre pode optar…ou mesmo mesclar! 🙂
Em Kult, o horror é brutal, violento, forte e recomendado para maiores de 80 anos acompanhados pelos pais! Esqueça a violência física, maniqueísta, e pense em tensão sexual, em tensão psicológica, que vai fazer qualquer player tremer na base…e se o mestre nào tiver cuidado e o chamado bom-senso, a coisa pode acabar dando merda! Por isso, não vamos esquecer que isto é só um jogo, e que se a gente não se divertir, pra que diabos a gente tá jogando? 🙂
Quanto a conspiração, a paranóia generalizada do estilo Arquivo X/Millenium (seriado que tem muuuuuuito a ver com o Kult, diga-se de passagem), não se esqueça de os players vão estar remando contra a maré: você não é mais um envolvido na conspiração – você é um dos poucos malucos que estão contra ela! E não se esqueça de que pode haver um Lictor perto de você, onde você menos imagina… Tenha em mente que a conspiração contra a qual você luta não é organizada simplesmente por um governo inescrupuloso, como em Arquivo X: ela é forjada por anjos e demônios que querem te impedir de enxergar a verdade…O buraco é bem mais embaixo…
Sistema de Regras – Até aqui, você se apaixonou, né? Como é que é, você quer saber o que é preciso pra sair jogando o Kult? Oras, além do módulo básico (o que é óbvio), você vai precisar de um dado de 20 lados, embora seja bacana que você tenha um ou outro dados de dez e de cinco lados.
O sistema é bem parecido com o do GURPS (calma, calma, não se descabele!), embora pareça, em alguns momentos, mais ágil e moderno. Já a criação do personagem, também similar a do GURPS, pode parecer meio cansativa para um jogador iniciante, devido à certa profundidade no background (história passada) do personagem, mas, depois de pronto, o PC (Player Character) torna-se algo muito mais completo em termos de roleplaying (interpretação) do que um personagem de GURPS e, segundo dizem alguns, mesmo do que um personagem de Vampire.
Só pra constar: a segunda edição americana de Kult foi lançada em 96, mas os fãs mais fiéis só consideram a primeira edição como oficial – já que o que corre à boca pequena é que a tal segunda edição teria falhas por todos os lados, da ambientação ao sistema de regras. Se isso for mesmo verdade, partilho da mesma opinião: por que diabos estragar aquilo que é sensacional? 🙂
Considerações Finais – Tanto este jogo quanto o longa-metragem Matrix, citado como de temática semelhante ao Kult logo no começinho da matéria, são baseados numa antiga cosmogonia (teoria acerca da criação do universo), vinda da Antiga Grécia e formulada pelo célebre filósofo Platão. A teoria dizia o seguinte: um criatura chamada Demiurgo (que no grego quer dizer Criador, e que aí poderia ser entendida como Deus) estaria tendo um sonho, e que nós seríamos o seu eterno sonho, estando alheios da realidade e presos numa Ilusão sem fim…
Agora pensa comigo: o que vai acontecer quando este cara acordar… 🙂
Mas que você não venha me dizer que não é nerd, mas sim que você é “cult”, pra você ver só… – elcid@a-arca.com
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