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Antes de tudo: não, eu não vou ser um mané e estragar a sua espera de 27 anos para saber tudo sobre o passado obscuro do invocado mutante Wolverine com uma crítica que conta detalhes ‘além da conta’ sobre a série Origem (Panini Comics). Prometo que vou fazer o possível para dizer tudo que achei sem entrar em muitos pormenores. Afinal, a surpresa é um elemento crucial na trama elaborada pelo competente argumentista Paul Jenkins.
A primeira coisa que me vem à mente é: você não vai se arrepender. De jeito nenhum. Valeu a pena aguardar todo este tempo. Todo o mistério que a Marvel Comics criou em torno do personagem mais importante do universo X se desvanece numa história envolvente e surpreendente. Eu, por exemplo, nunca fui exatamente um fã do baixinho canadense. No entanto, espero que a abordagem que Jenkins cria para o herói nesta série em seis partes (que a Panini sabiamente publica por estas bandas em três edições) se torne uma espécie de guia para futuros roteiristas, evitando aquelas histórias que só sabem fazer uso da ultra-violência de Logan, tornando-o completamente superficial.
Quem andou lendo os gibis mais recentes do personagem vai ficar com uma pulga atrás da orelha para saber como o Jenkins amarra todo o material já publicado sobre o Logan. Afinal, uma série de autores mostraram o cara em diversos momentos da história, incluindo a Segunda Guerra Mundial. Mas pode deixar o arrepio na espinha passar: até a minissérie Arma X, de Barry Windsor-Smith, até respeitada em ‘Origem’. Os fãs de quadrinhos respiram aliviados. Não era pra menos: Jenkins é acompanhado de perto por Joe Quesada (editor-chefe da Marvel e capista da série) e por Bill Jemas (presidente da editora) neste importante roteiro.
A história de Wolverine começaa revelando seu verdadeiro nome… que eu prefiro não contar aqui. Quem já leu a primeira edição da série vai entender muito bem o porquê. Tudo se inicia na infância daquele que viria a se chamar Logan (não, não é seu verdadeiro nome, você vai entender porque ele será adotado). Embora não fique claro em que época tudo acontece, a história parece rolar na virada do século… dezenove. Isso mesmo. Ele é realmente um homem centenário, cujas habilidades regenerativas o fazem envelhecer muito mais devagar. O pequeno Wolvie tem em torno de 10, 11 anos e vive na cidade de Alberta, no Canadá. É no berço amaldiçoado de uma família de nobres que a tragédia se desenrola… e o futuro herói finalmente descobre suas garras de ossos, num dos momentos mais fortes da série.
Aos poucos, de forma sutil, Jenkins nos mostra como ele descobriu seus outros poderes mutantes (os sentidos ampliados e a renegeração), sem citar, em nenhum momento, que ele seria mutante. Afinal, naquela época esta nova espécie ainda não era uma realidade para os humanos. Tido como aberração, ele começa a se tornar um caçador selvagem nas florestas do norte do Canadá. Em meio aos lobos, seus instintos começam a falar mais alto.
O mais interessante, no entanto, é sacar claramente porque Wolverine acabou apagando de sua mente uma boa parte de suas memórias mais antigas. Cheio de problemas emocionais, o pobre garoto tem dificuldades para esquecer a tragédia que se sucedeu e acaba renegando seu passado, assumindo de corpo e alma sua nova identidade. “Para mim, não existiu vida antes! Eu não sou mais o mesmo”, ele diz. Fica clara a mudança de atitude do rapaz, até mesmo em suas roupas – agora mais próximas do estilo ‘lenhador de camisa xadrex’ que ele tanto gosta de usar atualmente. Embora não fique 100% claro, parece que o choque mexeu de tal forma com ‘Logan’ que seu inconsciente ajudou a apagar mais trechos de sua memória, como uma espécie de escape psicológico que, anos mais tarde, ajudaria a torná-lo a máquina de matar sem memória do experimento Arma-X. Os implantes de memória agiriam muito fácil em uma psiquê perturbada.
Vale ressaltar ainda a presença da personagem Rose, uma pobre menina do vilarejo que vai trabalhar na mansão dos Howlett e acaba conhecendo ‘Logan’. O apoio da pequena ruivinha, decididamente a primeira paixão da vida do Carcaju, acaba se tornando essencial, mostrando claramente a origem de seu problema com as ruivas. Primeiro, Heather Hudson, a Guardiã da Tropa Alfa. Depois, sua já clássica e conturbada relação com Jean Grey…
:: E A ARTE, MEU CARO?
De cair o queixo, simplesmente espetacular. O toque envelhecido do traço de Andy Kubert, que deve ter aprendido muito bem com o papai Joe, funciona perfeitamente para situar o leitor numa história que se passa no século XIX. Os olhares e movimentos de seus personagens são de uma tamanha expressividade que a série ganha em força dramática e densidade. Parabéns também para o colorista Richard Isanove, que trabalha digitalmente sobre o desenho de Kubert… sem arte-final! O resultado está lindíssimo, perfeitamente natural, muito bem acabado e com a profundidade que se espera do arte-finalista.
:: SÓ LEMBRANDO…
Criado em 1974 por Len Wein para participar de um confronto entre o Incrível Hulk e o Wendigo na edição 180 de The Incredible Hulk, Wolverine só ganhou destaque no universo Marvel quando Chris Claremont e o desenhista Dave Cockrum decidiram que ele faria parte dos Novos X-Men. Assim, em Giant-Size X-Men 1, de 75, ele se juntou a Colossus, Banshee, Noturno e Tempestade para resgatar os X-Men originais (Jean Grey, Ciclope, Fera, Anjo e Homem de Gelo) de Krakoa, a Ilha Viva (puta vilãozinho meia-boca). Só com a entrada do desenhista John Byrne é que ele ganhou corpo, e o estilão bad boy, todo arrogante, machão, charuto na boca e camisa aberta mostrando o pêlo do peito (eca!) conquistaram os leitores.
Seu passado, no entanto, era sombrio até então. Esquecendo as cagadas que alguns estúpidos andaram fazendo no passado com os roteiros dos X-Men, sabe-se que ele lutou ao lado do Capitão América na II Guerra Mundial, atuou em missões para a CIA (ao lado do Dentes-de-Sabre e do sinistro Maverick) e fez parte do terrével projeto Arma X, do governo canadense, onde conheceu e lutou ao lado da galera da Tropa Alfa. A maravilhosa minissérie “Arma X”, de Barry Windsor-Smith, contou um pouco deste período da vida de Logan, quando seu esqueleto foi revestido de adamantium, um dos metais mais resistentes do mundo.
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