|
Desde que eu comecei a ler quadrinhos, eu colecionei alguns personagens que considero meus desafetos. O pessoal que me acompanha desde a época da PQP (vulga Puta que Pariu!) sabe que eu odeio, por exemplo, o Capitão América e principalmente o Super-Homem (ARRRRRRRRRGH!). No entanto, o Justiceiro sempre foi, ao lado do Wolverine (esse sempre dá briga quando digo isso!), um dos personagens que mais detesto. Os motivos são simples: para mim, Frank Castle, assim como Logan. o baixinho canadense, é um herói VAZIO. É isso mesmo – meio Beavis e Butt-Head, entende? Violência pela pura e simples violência. A família do cara morreu por acidente num briga de gangues. Agora, o cara vai sair matando todos os bandidos do mundo por vingança. Digamos que essa tentativa de criar um lado negro do Batman não me convenceu muito – enquanto o Homem-Morcego se retorce em culpa e tenta evitar que outros garotos acabem ficando órfãos como ele, caminhando no limite entre a sanidade e a loucura, o Justiceiro simplesmente…mata. O cara é um psicótico sem volta, meu! Numa sociedade niilista (vazia de espírito e conteúdo) como a nossa, é claro que ele faria sucesso. "O cara é o matador! Foderoso!". Tsc, tsc…
Mas, ao mesmo tempo que eu detestava as histórias do Justiceiro pelos motivos já apresentados, me atraía ver que ele era o mais comum e urbano dos "heróis", sempre livre dos inúmeros universos paralelos e outras dimensões e dos mega-eventos que sempre cagavam com tudo de criativo que a Marvel tinha criado. Fora o seu posicionamento hostil e politicamente incorreto, que sempre o colocava contra os "certinhos" de plantão, como o Homem-Aranha e o Demolidor, gerando conflitos memoráveis. Como era de se esperar, isso durou pouco: com o surgimento, no ano passado, do selo "Marvel Knights", uma das mais saborosas criações da Marvel nos últimos anos (cortesia de Joe Quesada e Jimmy Palmiotti), pensava-se que o Justiceiro ganharia histórias melhores. Ledo engano: enquanto Kevin Smith fazia um dos mais elogiados arcos de histórias com o Demolidor, o Justiceiro se suicidava, ressuscitava pelas mãos do anjo da guarda da família Castle (?), e se transformava no caçador de ectoplasmas (??), meio morto-vivo (???) e com um par de armas que se materializavam em suas mãos (????). Totalmente deprê…
A grande virada veio no começo deste ano, quando a Casa das Idéias (leia-se Marvel) anunciou que a nova equipe criativa do título do Justiceiro seria formada pelo roteirista irlandês Garth Ennis e pelo desenhista Steve Dillon, os responsáveis pelo sucesso do título "Preacher", do selo Vertigo, da DC Comics. Reconhecido por sua habilidade de lidar com a violência e o humor negro faziam de Ennis a escolha perfeita, aliado ao traço ultra-sanguinolento, expressivo e realista de Dillon. Eu li os dois primeiros números americanos da revista, e tenho que admitir: foi uma surpresa gratificante.
Antes de tudo, não se pode esquecer de citar a arte das capas, a cargo dos sensacionais pincéis de Timothy Bradstreet. Quem já jogou o RPG "Vampire: The Masquerade", lembrará dele quando vir a capa dos clanbooks (livros de clã) dos sete clãs da Camarilla. Assustador, cruel e violento: uma versão negra e mal-encarada dos desenhos do Alex Ross.
Ao ler a revista, pode ter certeza que você terá medo deste novo e revisado Frank Castle. Caladão, expressão sempre fechada e olhos sem sentimento: um assassino completamente frio e calculista. É o Justiceiro de volta aos básicos: uniforme negro, enorme caveira branca, um pequeno e discreto apartamento no bairre mais pobre da cidade e um MONTE de armas! Embora não tão sangrento quanto o "Preacher" (mais liberal com relação ao Código de Moral por ser um selo adulto da DC), o Justiceiro de Ennis é um matador sem piedade. Vocês tem que ver a forma cruel através da qual ele dá cabo de seus inimigos.
Em suma: é o bom e velho Justiceiro que vocês amam de volta a Nova Iorque, em busca da mafiosa Mama Gnucci, com histórias a altura do Demolidor, Pantera Negra e Inumanos, os companheiros de Castle no selo "Marvel Knights", todos com roteiros de altíssima qualidade. Rezem para que essa nova fase com Ennis e Dillon dure muito nos Estados Unidos e chegue logo ao Brasil!
E é isso aí, vou almoçar, porque também sou filho de Deus (o preferido, é óbvio) – elcid@a-arca.com
|