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Desde que a Warner Brothers anunciou para o final do ano 2001 os dois principais lançamentos cinematográficos do ano, "Harry Potter e A Pedra Filosofal" e "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel", a imprensa e alguns fãs malucos começaram a fazer comparações entre as duas obras. "Harry Potter é uma merda, uma cópia descarada e infantil da obra de Tolkien", gritam alguns. "Senhor dos Anéis é muito metido a intelectual, coisa daqueles professores velhos e chatos que não conhecem diversão", bradam outros. A verdade é uma só: é no mínimo imbecil querer comparar os dois filmes. E eu explico porquê.
Antes de tudo: são coisas completamente diferentes. As aventuras do bruxinho são, inegavelmente, voltadas para o público infantil. Quando digo "infantil", em nenhum momento quero dizer "idiota", já que nem o roteiro e nem os livros da escocesa J.K.Rowling subestimam a inteligência das crianças. Tudo bem, eu mesmo já vi o filme três vezes e ainda me emociono com a cena final com Potter e o Prof.Alvo Dumbledore na enfermaria…mas é uma aventura que pretende pegar as crianças essencialmente. Mas, parafraseando uma excelente matéria publicada no Estado de São Paulo: "O Senhor dos Anéis" pode causar pesadelos nas crianças que foram ao cinema ver o filme achando que se trata de algo sequer semelhante às peripécias do garoto de Hogwarts.
Harry Potter aborda, antes de tudo, as dificuldades de um menino em se ajustar a um mundo que não era o seu. Fala também de preconceito – ou como você classificaria as atitudes dos trouxas da família Dursley? Já os temas da saga do hobbit Frodo Bolseiro são mais adultos, maduros e psicológicos. Tolkien fala de corrupção, da luta de uma pequenina criatura contra um artefato que desperta o que há de mais podre na alma humana. Como dizer que o Prof. Severo Snape seria um vilão semelhante ao implacável Sauron? Os dois são assustadores…mas em níveis bem diferentes.
MAS…
…o que a nova geração de fãs de Harry Potter não pode ignorar é o fato de que o trabalho de J.K.Rowling é mais do que obviamente inspirado em Tolkien. E ponto final. Nem a autora britânica nem ninguém pode deixar de perceber as referências ao mundo de fantasia tolkieniano. São duendes (em Gringotes, lembra?), trasgos (em inglês, trolls) e, principalmente magos para todos os lados, misturando os estereótipos do escritor ao mundo real dos "trouxas". Uma espécie de Tolkien para crianças, eu diria – e que a senhorita Rowling (cujo nome em sigla lembra claramente um tal J.R.R.Tolkien) não ache que isso é um defeito, muito pelo contrário. Afinal, o autor de "O Senhor dos Anéis" sabia como ninguém escrever para os pequeninos (e não estou falando de hobbits). Seu primeiro livro, "O Hobbit", era uma história que ele contou para seus filhos. E é uma leitura deliciosa.
O PECADO DA ULTRA-FIDELIDADE
No entanto, aquela que eu vejo como a principal diferença entre os dois filmes é que, ao contrário de Peter Jackson, Chris Columbus cometeu o pecado da ultra-fidelidade. Não me entendam mal: eu simplesmente adorei o filme do Harry Potter! Como disse na crítica que escrevi, ele está acima dos detalhes que qualquer crítico possa sequer perceber para tentar meter o pau- é um filme mágico, que me fez voltar a ser criança. Mas mesmo assim, sou obrigado a admitir, na comparação entre duas adaptações de obras literárias para o cinema, que o diretor Columbus pecou em querer fazer um filme para fãs. Desta forma, ele se esqueceu de um público tambérm muito curioso para saber de quem se trata este tal Harry Potter: aqueles que NUNCA leram o livro. "Harry Potter e a Pedra Filosofal" é apegado demais ao livro, mantendo pequenos detalhes que ele acabou não desenvolvendo no resto da trama. Desta forma, eles confundem quem não conhece a obra e se tornam inúteis para contar o resto da história.
Um exemplo? Os fantasmas de cada casa. Em nenhum momento fica claro qual é a função deste espíritos errantes. Aí, Columbus desperdiça pelo menos cinco minutos (e a participação de John Cleese) nos apresentando estes personagens…que não vão ter mais nenhuma participação relevante dali pra frente. Dava pra fazer o filme simplesmente cortando esta sequência. Não ia prejudicar em nada. O mesmo vale para Norberto, o dragão norueguês. Isso foi puro medo do diretor, que não quis enfurecer os fãs mais fanáticos.
Isto não acontece em "O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel". Peter Jackson entendeu que esta obra cinematográfica é uma adaptação – portanto, outra obra, outra mídia, com características diferentes. E ele não teve medo de ousar, cortando personagens, fundindo dois deles em um só…apenas para facilitar o andamento da história para aqueles "não-iniciados", que nunca tiveram contato com a obra de Tolkien. Simplesmente perfeito. Uma lição para Columbus tentar colocar em prática em "Harry Potter e a Câmara Secreta".
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