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Que Peter Parker é o nerd que deu certo (mais ou menos…) todo mundo já sabe. Que ele foi picado por uma aranha radioativa e ganhou super-poderes com esta história toda, tornando-se o vigilante mascarado conhecido como Homem-Aranha, também já é de domínio público. No entanto, nem todo mundo sabe que ele é filho de Richard e Mary Parker, não é? Casal de formação militar, sempre tiveram um espírito aventureiro, desbravador. Talvez porque combinassem tanto é que acabaram casando tão cedo, enfrentando a tudo e a todos. Depois de anos servindo o governo dos EUA, os dois agentes altamente treinados não demoraram a ser recrutados pela CIA, para uma série de operações de espionagem em plena Guerra Fria contra a Rússia. Na época, os dois tinham acabado de ter seu primeiro filho, Peter. Para cuidar do garoto em suas constantes ausências, o casal contava com a ajuda do irmão mais velho de Richard, Benjamin.
Casado há muito tempo com a simpática May Reilly (que abandonou seu nome de solteira para usar o ‘Parker’), o ex-funcionário de serviços gerais do Parque Barker (em Coney Island) nunca teve filhos, e por isso se derretia ao cuidar do garoto. Brincalhão, piadista, adorava divertir o menino por horas com caretas e palhaçadas. A situação ficou realmente dramática, no entanto, quando Richard e Mary foram dados como mortos num acidente de avião, e a custódia de Peter ficou nas mãos de Ben e May. Embora ter que viver da aposentadoria de Benjamin não fosse a coisa mais fácil do mundo, os dois velhinhos faziam o possível e o impossível para dar o melhor para o seu novo ‘filho’. Seus dotes intelectuais manifestaram-se cedo, e não demorou para que ele fosse surpreendido com um laboratório juvenil e um microscópio para começar a aprontar das suas. Embora algumas vezes a preocupação e super-proteção de May parecessem exageradas, Ben sempre dava um jeito de esfriar as coisas, e o lar dos Parker, no bairro suburbano do Queens, era pura harmonia e amor.
Mas…a situação não era bem assim na escola. Desde criança, o comportamento CDF de Parker incomodava os coleguinhas. Conforme a adolescência se aproximava, a coisa foi piorando. Ele era o alvo constante das brincadeiras (das mais cruéis), maltratado pelos amigos (liderados pelo capitão do time de futebol, Flash Thompson), ignorado pelas meninas, visto como uma espécie de ‘babacão’ a quem estavam destinados os livros e uma vida de solidão. Em suma: era um nerd, como boa parte de vocês deve saber muito bem (eu sei, acreditem).
A vida de Peter Parker começou a mudar aos 17 anos, quando uma mostra científica de experimentos radioativos chegou ao colégio Midtown, onde ele estudava. Durante a apresentação de um canhão de feixes radioativos, uma pequena e imperceptível aranha foi bombardeada pelos raios sem que ninguém percebesse. Logo em seguida, o bicho de oito patas picou ninguém menos que…Peter Parker (mas esta você já sabia). Os efeitos da radiação zoaram o DNA do animalzinho, que logo transferiu suas habilidades para o jovem apavorado. Desta forma, Peter ganhou força, velocidade e resistência sobre-humanas (em comparação ao seu tamanho, a Aranha é um animal fortíssimo), a habilidade de aderir a determinadas superfícies e ainda uma espécie de sexto-sentido precognitivo, um "sentido de aranha".
Contra um lutador de luta-livre chamado Hogan, O Esmagador, Parker se mascarou e testou pela primeira vez os seus poderes e descobriu a extensão de suas habilidades, surpreendendo um promotor de novos talentos que assistia às lutas naquela tarde. Um garoto franzino como aquele, dando cabo de um homenzarrão como Hogan? Ele valia muito mais do que aqueles míseros 100 dólares oferecidos como prêmio. Prometendo conseguir-lhe até mesmo uma vaga no "The Ed Sullivan Show", o empresário pediu que ele conseguisse uma roupa melhor e um codinome. Prendado como ele só, Peter desenhou e costurou o uniforme de Homem-Aranha. Nas semanas seguintes, desenvolveu a fórmula de uma poderosa substância adesiva que era uma espécie de cabo de aço fortíssimo. Mas um detalhe: depois de uma hora em contato com o ar, se dissolvia. Criou também uma engenhoca, um aparelho disparador para esta substância estranha, uma espécie de "disparador de teias". E bingo: o Homem-Aranha estava vivo.
MAS…
…nem tudo é assim tão fácil. O sucesso na TV subiu para a cabeça daquele garoto, acostumado aos maltratos dos ‘amigos’ e agora tratado como estrela e idolatrado por aqueles mesmos que o odiavam. Eles não sabiam que era o ‘fracote’ do Parker sob a máscara…mas ele não se importava. O ego era tanto que, certo dia, um bandido invadiu os estúdios de uma emissora local e levou o dinheiro do cofre. Passando diretamente pelo Aranha no corredor, ele seguiu tranquilo em seu caminho de fuga. Um policial, revoltado, inquiriu o mascarado: "Por que você não o deteve?". E ele respondeui: "Isso não era problema meu". Ledo engano…
Horas mais tarde, a residência dos Parker estava cercada por carros de polícia. Quando Peter chegou, descobriu que seu adorado Tio Ben tinha sido assassinado por um ladrão em fuga, que já tinha apavorado outras residências da vizinhança. Enlouquecido, Parker vestiu-se como Homem-Aranha e foi tentar capturar o criminoso, escondido num armazém dos arredores. E a teia do destino estava armada, quando Peter finalmente captura o criminoso e descobre que ele é o mesmo sujeito que deixara escapar horas atrás… Depois de entregar o assassino à polícia, Parker começou a se lembrar que, antes de um sujeito brincalhão, divertido, Ben Parker era um homem honrado. Sábio. E que sempre o aconselhara a tomar cuidado com suas decisões. "Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades", era o seu mantra. Esta frase se tornou o guia de Peter, que começou a dedicar sua vida a evitar que tragédias como estas voltassem a se repetir na vida de outros. Finalmente, o jovem Peter Parker entendeu que estes poderes não deveriam torná-lo famoso ou popular…mas sim salvar vidas. E de garoto, Parker se tornou um herói.
Daí pra frente, a história se seguiu como sabemos. Para ajudar a tia em dificuldades, Peter desenvolve um pequeno aparato que fotografa pessoas assim que elas passam na frente da câmera – desta forma, ele começou a descolar as fotos exclusivas que o Clarim Diário, um dos maiores jornais da cidade de Nova York, tanto queria do Homem-Aranha. Mal podia imaginar ele que J.Jonah Jameson, editor-chefe da publicação, queria mesmo usar o material para deflagar uma campanha difamatória contra aquele que ele considerava uma verdadeira ameaça aracnídea. A partir de então, a desconfiança da população sobre o Aranha aumentou, e a relação de amor e ódio com as autoridades e com a imprensa virou uma constante.
Veio a faculdade, a Empire State University. Vieram os novos amigos, como Harry Osborn. Vieram as namoradas: Liz Allen, Betty Brant, Gwen Stacy, Mary Jane. Vieram os inimigos, estes adoráveis psicóticos fantasiados. Veio o uniforme negro. Veio o casamento. Vieram os clones (ARGHHHHHHH). E por aí vai…
A GÊNESE DE JOHN BYRNE
Na metade da década de 90, as histórias do Homem-Aranha chegaram ao fundo do poço. Roteiros vazios, horríveis, um personagem sem carisma, abobalhado, e o foco totalmente na ação das aventuras do Homem-Aranha, esquecendo do elemento que fez dele um sucesso: o dia-a-dia de Peter Parker. O escolhido para tentar dar jeito na coisa foi John Byrne, quadrinista que já tinha sido convocado para uma bela reformulação da origem do Super-Homem e para uma mediana recauchutagem nos primórdios do Quarteto Fantástico. A missão era reformular e modernizar o surgimento do Homem-Aranha para o ano 2000, sem esquecer das recentes bobagens que os autores da ‘Saga do Clone’ fizeram na cronologia (sim, Byrne teve que considerar algumas mudanças que os caras tiveram a coragem de fazer beeeeeeem lá atrás, no passado do herói).
Byrne não foi tão radical quanto na reformulação do Homem-de-Aço. Basicamente, a tal aranha que picou Peter Parker foi acidentalmente bombardeada num experimento de manipulação de DNA que o famoso Dr.Otto Octavius apresentava a alguns garotos do Midtown College. Ou seja: além de unir as origens do Aranha e do Dr.Octopus, ele retirou o caratér radioativo que permeava a trama, coisa que fazia um baita sentido nos anos 60 mas que não convencia mais na década de 90. Além disso, o ladrão que matou o Tio Ben mostrou-se grato pela ajuda que Peter teria dado ao deixá-lo fugir, convidando-o até a se juntar a ele. Na verdade, o tal criminoso já estava há dias de olho na casa dos Parker, depois que viu Ben chegar com um belíssimo computador de presente para Peter.
Verdade seja dita: esta saga foi beeeeeeeeem fraquinha, Serviu apenas para dar mais fôlego para vilões como Dr.Octopus e o Electro, que recuperaram seu carisma e periculosidade. Quanto ao resto: diálogos bobos e forçados, situações esquisitas e boas doses de piadas sem timing nenhum. Pra mim, uma tremenda bola fora: ainda que seja velho, o trabalho de Lee e Ditko parecia muito mais legal.
O ULTIMATO DE BRIAN MICHAEL BENDIS
Há cerca de dois anos, quando o quadrinista Joe Quesada assumiu o cargo de editor-chefe da Marvel Comics, chutando a bunda do mala do Bob Harras, tudo começou a mudar no universo do Homem-Aranha, hoje novamente considerado um dos personagens mais quentes do momentos. Tudo começou com o lançamento da linha "Ultimate". Esta nova série de títulos nada mais é que uma tentativa da editora de atrair novos leitores, recontando com uma abordagem anos 90 as origens de seus principais personagens. O primeiro lançamento, "Ultimate Spider-Man", foi um sucesso tão grande que seu primeiro número simplesmente esgotou nas bancas e lojas especializadas americanas.
Numa boa, os puritanos que me perdoem, mas já adianto: esta origem do Homem-Aranha, escrita por Brian Michael Bendis (outro ex-Vertigo) e desenhada pelo polivalente Mark Bagley, está muitíssimo melhor do que a apresentada por John Byrne em "Gênese" e arrisco até dizer, melhor do que a criada por Stan Lee e Steve Ditko. Podem me acusar de blasfêmia, mas é verdade: você se envolve muito mais com os personagens, tudo acontece com mais calma, te dando tempo para conhecer o dia-a-dia de Peter, seus problemas na escola, a lenta descoberta de seus poderes e principalmente: você conhece e se envolve com o Tio Ben, o que acaba te dando plena compreensão do que Peter deve sentir quando ele acabar assassinado. Quer saber de um detalhe interessante: Peter tira fotos para o Clarim Diário com uma câmera digital, e é web designer do site oficial do jornal!!! É mole?
A história influenciou claramente a do filme: a aranha que pica Peter Parker é geneticamente alterada, um experimento da Oscorp (empresa de Norman Osborn). Desde o início, o grande inimigo do Aranha é o Duende Verde (nos quadrinhos originais, ele só apareceria muitas edições depois), que não demora a juntar A+B para descobrir quem é o Homem-Aranha. Para desenvolver o composto que origina sua teia, Peter completa uma série de estudos de seu pai, tão genial quanto ele.
Esta é uma série que vale acompanhar: atualmente, sai no Brasil dentro da revista "Marvel Millennium", da Panini Comics. Fodíssimo mesmo.
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