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Artigo adicionado em 22/10/2002, às 04:29

EL CID ENTREVISTA GAZY ANDRAUS
O psicodélico autor de quadrinhos fala com exclusividade Quadrinho da história "Faces", de Gazy Andraus – Clique para ver maior Mais do que meu amigo, Gazy Andraus, 33 anos, é um dos baluartes da produção de quadrinhos no Brasil, que, ao lado de nomes como Flávio Calazans e Edgar Franco, vem há anos batalhando no […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

Não, este não é um retrato 3x4 do Gazy

Quadrinho da história "Faces", de Gazy Andraus – Clique para ver maior

Mais do que meu amigo, Gazy Andraus, 33 anos, é um dos baluartes da produção de quadrinhos no Brasil, que, ao lado de nomes como Flávio Calazans e Edgar Franco, vem há anos batalhando no mercado alternativo em busca de uma chance ou de uma brechinha por entre as infindáveis barreira que os quadrinhos comerciais impõem. Gazy fala sobre quadrinhos, o EU cósmico e o Ultra Seven – ora vamos, quem está entrevistando o cara? O que vocês esperavam, feijão com arroz?

El Cid: Diga lá, Gazy! Deixa eu te perguntar: como foi o seu primeiro contato com o mundo dos quadrinhos? Sabe, aquele primeiro gibi que você leu, que te despertou um interesse especial…E com quantos anos rolou isso?
Gazy Andraus: Leio HQs desde os sete anos de idade. Minha primeira foi "O País Perdido", de Mickey, num gibi de 1974. Daí por diante, a magia das HQs me dominou. Naquela década de 70, por haver uma enorme variedade de títulos, conheci Mortadelo e Salaminho, Recruta Zero, Birutéia, Gasparzinho, Lelo, Tininha e Brotoeja, Turma da Mônica, Zorro (Walt Disney), Corrida Maluca, Luluzinha, etc.

El Cid: E daí pra você começar a desenhar, foi um pulo? Como eram seus primeiros trabalhos?
Gazy: Assim fui seguindo, e enquanto lia os gibis, aprendia a desenhar elefantes e girafas (que na verdade fazia desde os seis anos: aos cinco eu "brincava" com as revistas de série de TV "Vila Sésamo"). E, enquanto aos sete anos eu lia gibis, além de ver seus desenhos animados, já me preparava para o mundo juvenil-adulto assistindo Batman e Robin, Zorro e Ultra-Seven – este era uma série japonesa de extrema sensibilidade, especialmente para a formação moral e ética para as crianças. No último episódio da série, o herói extra-terrestre, já enfraquecido e prestes a retornar a seu mundo natal, revela numa cena de extrema sensibilidade sua dupla identidade à sua amiga-namorada da equipe de trabalho, e em seguida "vence" o monstro, numa luta onde quase perde sua vida, para em seguida abandonar definitivamente a Terra, deixando nostálgicos todos seus companheiros…e também todas as crianças que assistiam a série! Relato em detalhes este sentimento, pois serve de alerta às novas gerações que não têm mais muitas produções culturais como aquelas, que ajudavam a desenvolver sentimentos e ideais nobres, hoje em dia relegados a último plano. Bom, depois passei a desenhar dinossauros até os 11 anos, quando principiei os super-heróis (graças à série "Metamorfose" do Capitão Marvel, escrita e desenhada por Jim Starlin, e publicada pela extinta "Heróis da TV" da Ed. Abril).

El Cid: Você chegou a copiar alguém até conseguir assumir um estilo próprio de narrativa? Quais foram as suas maiores influências?
Gazy: Dos 11 aos 15/16 anos, desenvolvi meu traço bebendo principalmente na fonte de Jim Starlin, Jim Aparo, John Byrne e Neal Adams, nesta ordem. Os jovens adolescentes se maravilham com os desenhos de Super-Heróis de HQs norte-americanos, como acontecia comigo. Mas naquele período eu gostava de ler roteiros inteligentes e que cativassem, principalmente os que traziam mensagens filosóficas, tal como no final do filme Blade Runner, onde o robô-vilão morre segurando uma pomba. Entre os 16 e 19 anos eu parei de fazer HQs, só retornando no final de 1986, quando fui convidado por Flávio Calazans a publicar uma HQ no Barata (zine de Santos). Então me deparei fazendo afinal HQs adultas, para o público em potencial adulto. Daí as influências na arte vieram aos poucos, com fases de experimentalismo à La Sienkewicz, até chegar a meu estilo atual estético, minimizado e sem o uso de réguas ou pré-elaboração de roteiros.

El Cid: Defina histórias em quadrinhos na concepção de Gazy Andraus?
Gazy: Algumas pessoas crêem que as HQs poéticas não são verdadeiramente HQs. Estas pessoas têm uma visão limitada, que entende que a HQ tem que necessariamente ter um padrão – roteiro de começo-meio-fim, como num gibi de Super-herói ou num um filme de ação norte-americano. A verdade é que as HQs são uma mescla da literatura e da arte visual, e, se a poesia é um tipo de literatura (como o é um conto literário), a HQ Poética é um outro tipo de Literatura Imagética sequenciada, ou seja, um outro modo de ser uma HQ. Histórias em Quadrinhos, para mim, nada mais são que outro modo tridimensional de se manifestar os fatos quadridimensionais ou além, que a humanidade "sabe" existirem noutras esferas de planos (como a física Quântica e o espiritualismo ecumênico explicam).

El Cid: E os seus trabalhos? Onde você chegou a ser publicado, quais as suas principais obras, tudo o mais…Não me esconda nada! 🙂
Gazy: Oficialmente, publiquei HQs na "Brazilian Heavy Metal", Fêmea Feroz" e "Metal Pesado", além de ilustrações para o "HQ Dimensão – especial do Batman", "Nektar", e "Dinossauros". Como se vê, não foram muitas, já que os editores ainda não estão preparados para meu tipo de trabalho (e eu compreendo, sem rancor, as razões). Já, para o meio alternativo, foram muitas minhas contribuições. A começar pelo Fanzine Barata, em vários números, o "Matrix", do qual fui também co-editor, e que ganhou o primeiro lugar na I Bienal de HQ do Rio de Janeiro, em 1991, e o prêmio HQ Mix do mesmo ano. Também para zines de Portugal, como o "Vôo da Águia" e "Equinócios", editados por Nuno Nisa, além de ilustrações para os mesmos e outros nacionais espalhados pelo Brasil. Destaco também minhas colaborações com HQs para o zine filosófico "Tyli-Tyli", que agora se tornou "Mandala", do Henrique Magalhães, além de muitos outros títulos que não me recordo no momento. Aliás, agradeço a todos que me abriram as portas para isto, e desculpem-me sinceramente por não ter tempo de dizer agora os nomes de seus zines. Mas também destaco minhas auto-edições, que em sua maioria foram co-editadas com Edgard Guimarães, exceto o Irmãos Siameses, cuja idéia e co-edição foi com meu amigo Edgar Franco. As outras auto-edições foram: "Homo Eternus", "Convergência", "Viagens", "HQ2", "O Inexpugnável", "Solos", "Sacro-Conquistador", "Para Criar um Sol" e o recente "Rogai". Também organizei o "Fantasia-Filosófica", com HQs de temática similar filosófica de vários autores que, por problemas técnicos, não teve muitas cópias (o que não impede que no futuro possa ser "reativado").

El Cid: Você se considera um artista underground? Por que?
Gazy: Eu sou um ser-humano underground, e com isto tudo o que vem de mim é underground. Tenho 33 anos, não sei dirigir e nem carta (é óbvio) eu tenho. Já morei em uma igreja árabe, durante quase cinco anos, quando estudava em São Paulo, na FAAP, onde adquiri meus conhecimentos espiritualistas lendo livros como os de Huberto Rohden, Madame Blavatski, Trigueirinho, Paul Bergier, etc, ao invés de ler só os de arte para a Faculdade, e aprendi a ser paciente com todas as coisas na vida, e também com todos os seres humanos, apenas observando o interior de mim mesmo: tudo o que eu sentia em mim, eu espelhava em todos os outros. Todas as angústias do espírito humano eu vivi, todas as mazelas espirituais, solidões, desesperos, e confinamentos espirituais, eu os tive durante uma longa fase de minha vida atual terrena. E por isto, eu sei o que se passa dentro de qualquer ser humano, pois qualquer um tem os mesmos anseios que eu: assim como eu tenho dois olhos e uma boca, só variando os tamanhos e cores, assim como disse Jung, que, embora transpareçam diferenças de raças, o substrato aos homens é comum…substrato este que ele chamou de arquetípico. O Homem, em essência, é sempre o mesmo.

El Cid: Como é o seu processo de criação?
Gazy: Meu processo de criação consiste em me envolver com a música que me atraí, que tem a ver com meu espírito de aventura e de energia-viva: o pulsar, principalmente do Heavy-Rock. E quando eu ouço, imagens e textos poéticos me pervadem, fazendo-me sentar e criar "instantâneos" que se sequenciam e se concatenam, por vezes fragmentados, pulsando e levando a mente do leitor a embarcar comigo na viagem, por minha intuição "visualizada". É por isto que minha arte parece mal feita, ou feita às pressas. Mas acreditem: eu preciso terminá-la no tempo do correr da música (que por vezes a ouço repetidamente à exaustão, tal qual como escrevo um texto, como estou fazendo agora mesmo: neste instante estou, ao mesmo tempo que escrevendo estas linhas, ouvindo músicas do grupo de rock Helloween). E é por isto que vai tudo à tinta preta direto, sem réguas (tal qual a fluição de uma pintura taoísta).

El Cid: Diz aí: qual é o trabalho de quadrinhos do Gazy que o Gazy mais gosta?
Gazy: Uma que gosto muito, é a HQ "Está Ido ou : Sorrindo" , que fiz após ver a fase terminal de câncer que atingia meu tio. Outra que me sensibiliza, é "Homenagem ao Homem Esquecido", publicado num dos números da Tyli-Tyli, e que é meio auto-biográfica também, mostrando como todas as coisas são auto-concatenadas, e que, mesmo as insignificantes, são na verdade as mais importantes, pois a HQ fala de um homem que conheci na infância, um libanês conterrâneo de meu pai, que sempre almoçava no restaurante que tínhamos (onde eu trabalhava contrariado), e que vendia queijadinhas…quando então se deu sua morte por ataque cardíaco numa das ruas de São Vicente. Aquilo (o fato de ele não ter tido nenhum apoio de ninguém, de ser sozinho), muito me sensibilizou, e muito contribuiu para a formação de meu caráter, para que eu viesse a ter esta visão de compaixão para com toda a humanidade.

El Cid: Você chegou a viajar por alguns países do mundo a estudos e colecionou alguns exemplares interessantes de quadrinhos de outras nacionalidades. Quais foram os de maior destaque e quais as suas principais diferenças com relação ao padrão norte-americano e ao quadrinho nacional?
Gazy: Viajei em 1984 para a França, Itália e Espanha, além do Líbano. Trouxe 12 quilos de "gibis" comigo, além de ter enviado mais 10 quilos pelo correio de lá, para o Brasil. A maioria deste material me serve para os cursos e palestras que dou (principalmente em Goiás), e os mais importantes são os de autores como Caza e Druillet. Voltei ao Líbano em 1997, onde pesquisei os caricaturistas e quadrinhistas ativos do País, e trouxe um álbum chamado "From Beyrouth", inteiramente escrito em árabe, com HQs de vários autores jovens de lá, retratando a situação da guerra civil (que durou vinte anos). A HQ mais bela (em nível mundial até) é a de uma autora, Lina, que discorre poeticamente, sobre uma vidente leitora do futuro através das linhas das mãos, que acaba por ler o futuro negro daquele país, nas linhas da mão da Lua, que se apresenta à mulher.

Uma história rica de conceitos regionais, e ao mesmo tempo universais (a guerra, a leitura do futuro, que atualmente a ciência explica ser possível, já que os planos se interpõem, e passado e futuro se tornam sempre presentes). As principais diferenças entre HQs americanas e européias: as primeiras são mais um meio de se passar o tempo (e de se obter lucro e só), enquanto que as outras são objetos de cultura. Mas aí tem a ver com a própria formação sócio-cultural de cada país. No Brasil, já que somos todas as raças ao mesmo tempo, e nenhuma em conjunto com a outra, estamos ainda formatando HQs (e tudo o mais) que no futuro possam ser algo que jamais foram (e nem serão) em lugar algum na face deste planeta, como o será o protótipo do "brasileiro-universal".

É, mas se é obra de Deus, ninguém assina

Quadrinhos da história "Sina", de Gazy Andraus – Clique para ver maior

El Cid: Na sua opinião, quem são os principais nomes do quadrinho nacional hoje em dia? Você viu algum novo talento que lhe chamou mais a atenção?
Gazy: Houve (e há) muitos que merecem crédito: Canini e seu Kactus Kid, Jaime Cortês, Flávio Colin e Shimamoto, Xalberto…mas agora, Edgar Franco, Calazans, Antônio Amaral, Al Greco, Erika Saheki, e por aí vai…ah, Edgar Guimarães pelo humor sutil (mineiro no arquétipo) e universal. Parabéns a Gian Danton que mostrou que não somos retardados, e podemos fazer trabalhos bem pesquisados, como na Manticore (e como n’ "A Guerra das Idéias" de Calazans).

El Cid: Sem papas na língua: o que ainda falta pro quadrinho nacional deslanchar de vez?
Gazy: O que falta é tomarmos consciência que somos uma nação diferente de todas as demais. Criemos, e não copiemos. E para as editoras livreiras, falta mais ousadia, crédito e originalidade, criando novas coleções de HQs, com gêneros distintos, e para o público adulto, com material nacional a ser vendido em livrarias, além de uma boa (e sincera) estratégia de marketing, mostrando a equivalência qualitativa dos autores de HQs brasileiras à dos escritores de livros. Mas isto vai se formatando (eu contribuo para tal em meus cursos). Temos que parar com o oba-oba de concursos e mega-exposições "falsas" internacionais, enquanto não temos ainda os segmentos certos, nem o mercado "real" das HQs brasileiras para o público adulto. A metáfora que vejo para tais incongruências, é a de trazer caviar para expor no centro comercial de uma cidade grande, onde as pessoas veriam esta iguarias (que é tida como nobre, embora para mim nada signifique, além de se aproveitar de ovas de peixes, matando-os à toa), mas desconheceriam, por exemplo uma pamonha.

El Cid: O que o Gazy anda lendo hoje em dia? O que você recomenda para os internautas da Arca?
Gazy: Recomendo os autores ingleses, como Grant Morrisson, em "Os Invisíveis". Todo o bojo ideário do autor está nesta obra: anarquismo, física quântica, filosofia oriental…tal como Alan Moore. No humor, leiam Iznogud, de Goscinny, o mesmo roteirista de Asterix. E do Brasil, leiam as HQs de Edgar Franco, Manticore de Gian Danton, e "A Guerra das Idéias" de Calazans. Leiam HQs minhas no zine "Mandala" de Henrique Magalhães (se bem que atualmente minha produção artística está perdendo espaço para textos que venho escrevendo, tais como esta entrevista, que acaba sendo-me muito útil, já que sinto prazer igual ao fazê-la).

El Cid: Ôpa, obrigado! 🙂 Bem, pra terminar, um PING-PONG bem rápido: um personagem.
Gazy: Horácio.

El Cid: Um desenhista
Gazy: Neal Adams

El Cid: Um roteirista
Gazy: Dois – Grant Morrisson e Edgar Franco

El Cid: Um mestre
Gazy: A intuição cósmica

El Cid: A melhor história em quadrinhos de todos os tempos
Gazy: Watchmen e A Small Killing, ambas de Alan Moore

El Cid: Um livro
Gazy: Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury

El Cid: Um músico
Gazy: Ian Gillan, do Deep Purple

El Cid: Uma música
Gazy: "Rebellion" de Gamma Ray e "Rime of the Ancient Mariner" de Iron Maiden

El Cid: Um filme
Gazy: Muito além do Jardim, com Peter Sellers

El Cid: Quadrinhos pra você são…
Gazy: Quadrinhos pra mim são extensão de minha vida: a primeira arte (pintura rupestre feita por homens pré-históricos – nós mesmos), e a última arte (a Nona Arte), pitagoricamente falando, pois a numerologia, segundo o matemático grego, resumia toda a vida universal: se o número um é o criativo, o independente, o número nove, o último, é o número universal, o número da humanidade, o que fecha um ciclo. As HQs, já que são a Nona manifestação artística do homem: a última que fecha um ciclo iniciado nas cavernas de Platão, e reprisada nos interiores da cavernas "arquitetadas", as Catedrais Góticas". Enfim, depois desta, a humanidade será, como um todo, manifestação pura da arte: o viver eterno do presente feliz. Obrigado por me deixarem manifestar estas idéias. Longa – e sempre agora – vida!

Bom, caso vocês queiram sugerir outras entrevistas, estamos aí: o e-mail é aquele de sempre – elcid@a-arca.com


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