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Artigo adicionado em 23/10/2002, às 02:23

Crítica: O QUARTO DO PÂNICO
David Fincher mostra que a violência da cidade grande está dentro de nossas casas Jodie Foster e a estreante Kristen Stewart Jodie Foster é mesmo uma mulher corajosa. Ela já encarou até o apetite insaciável do canibal Hannibal Lecter, veja só. No entanto, nem ela estava preparada para os planos que um “adversário” ainda mais […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

Calma, tudo bem, aquele gordinho de barba já vai embora...

Jodie Foster e a estreante Kristen Stewart

Jodie Foster é mesmo uma mulher corajosa. Ela já encarou até o apetite insaciável do canibal Hannibal Lecter, veja só. No entanto, nem ela estava preparada para os planos que um “adversário” ainda mais psicótico lhe reservava: David Fincher, diretor que escolheu a atriz como protagonista de “O Quarto do Pânico“, sua mais recente incursão cinematográfica. Para quem não se lembra, Fincher nos fez espectadores de duas perturbadoras viagens ao lado sombrio da psiquê humana: “O Clube da Luta” e “Seven – Os Sete Pecados Capitais”. Seu novo thriller não é diferente. “Eu não faço idéia do quanto os filmes devem divertir. Eu sempre estive mais interessado em filmes que assustam”, afirma o estranho Fincher. Dá pra perceber…

“O Quarto do Pânico” pegou a audiência e até mesmo os críticos mais chatos de surpresa. A trama parecia simples demais para alguém que nos fez engolir um personagem amoral como Tyler Durden. Mas Fincher apresentou uma trama tensa, cheia de ação e com atuações competentes, colocando o filme no topo da lista das maiores bilheterias americanas durante semanas. Tudo bem, admito: o trailer engana um pouco. Dá a nítida impressão que vai ser um filme de terror psicológico daqueles para te deixar sem dormir umas belas três noites. Na verdade, a trama dirigida por Fincher e roteirizada por David Koepp ("Homem-Aranha") é simples e direta ao ponto, investindo muito mais na tensão emocional do suspense do que nos sustos. Mesmo assim, por mais seja um filme, digamos, ‘feijão com arroz’, arrisco a dizer que é uma comidinha caseira básica mas com um ótimo tempero. E mais: o grande mérito do filme é mostrar que a violência da cidade grande se disseminou de tal forma que agora ela pode estar mais perto do que imaginamos, dentro de nossas próprias casas. Isso sim é um pensamento assustador.

Mesmo que o filme inteiro se passe dentro de uma casa fechada, Fincher consegue enlouquecer você, meu caro espectador, brincando com a iluminação e com os movimentos de câmera de tal forma que os ângulos vertiginosos começam a incomodar, mexer com seus sentidos enquanto você está sentido na poltrona do cinema. A câmera viaja, passando pela fechadura, pela alça de uma cafeteira e até pela lâmpada interna de uma lanterna. É ver para crer…e pirar com ele.

A trama gira em torno de Meg Altman (Foster, em papel que era originalmente de Nicole Kdman), mulher divorciada que, depois do fim do casamento com Stephen Altman (Patrick Bauchau), um magnata do mundo dos farmacêuticos, resolve estabelecer vida nova longe do glamour de Manhattan. Ela e a pequena filha diabética Sarah (a excelente estreante Kristen Stewart) logo encontram um apartamento perfeito numa área mais tranquila da cidade de Nova York, ideal para finalmente viverem em paz, depois dos estressantes últimos meses.

Me fala uma coisa: e este olho torto, hein?

Whitaker, com Jared Leto ao fundo

O morador original desta gigantesca casa foi um poderoso financista recém-falecido, por cujo espólio os herdeiros lutam como urubus por carniça. Paranóico com relação à violência da cidade grande, ele mandou construir o tal ‘quarto do pânico’ – uma sala oculta, fortemente protegida por uma estrutura de concreto e metal e com uma poderosa porta similar a de um cofre. Sem janelas, o quarto tem uma linha de telefone isolada e uma mesa de controle para 16 câmeras estrategicamente espalhadas pela casa.

Numa das primeiras noites na nova casa, ela se vê obrigada a trancar-se no tal ‘quarto do pânico’ com a filhota quando um trio de violentos ‘assaltantes’ invade a casa em busca de algo. Mas mãe e filha não estão tão seguras quanto pensam neste abrigo – pois parece que o que os invasores querem está justamente nesta câmara… e eles não vão sair da casa enquanto não conseguirem entrar no quarto especial. O trio de antagonistas é uma balança perfeita – Burnham (Forest Whitaker), com aquele olhar de bom moço, é o mais humano dos ‘vilões’, com alguma decência; Junior (Jared Leto) encarna o instável, quase histérico; e Raoul (o cantor country Dwight Yoakam) é o sanguinário, psicopata, que parece se divertir com a tensão da situação, impondo uma espécie de tortura psicológica às suas ‘prisioneiras’ vestindo uma máscara de esqui a la Jason Vorhees. O filme se torna então um sufocante jogo de gato e rato, que mostra quem é o verdadeiro vilão do filme: o medo, que mexe com as duas mulheres de um lado da porta e também com os três marmanjos do outro lado.

Foster está excelente. É nítido o desequilíbrio que vai tomando conta desta mãe desesperada conforme os minutos passam e ela vê a vida da filha em perigo. Todos nós sabemos o quão perigosa pode ser uma mãe enfurecida tentando proteger sua cria. Haja psicopata para segurar a fera! No entanto, o grande destaque é mesmo a garota Stewart, em interpretação emocionada e divertida. Uma boa aposta para os figurões hollywoodianos ficarem de olho.

Num resumo: o retrato que o diretor faz da Grande Maçã parece dizer que NY nada mais é do que um grande ‘quarto do pânico’, no qual cada morador vai ter que se trancar, em paranóia, enquanto a violência toma conta das ruas…ou da sua casa.

Panic Room. EUA/2002. Dir. David Fincher. Com Jodie Foster, Kristen Stewart, Forest Whitaker, Dwight Yoakam, Jared Leto, Patrick Bauchau.


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