|
Por mais que tenha enfrentado resistências, finalmente consegui convencer minha esposa e um casal de amigos a me acompanharem na missão de assistir Jason X, o décimo filme da série do já clássico assassino mascarado Jason Vorhees (e o segundo cujo título abandona de vez o nome "Sexta-Feira 13"). Sim, já entrego de antemão: o filme é horroroso. Muito ruim mesmo. Tão ruim…que fica simplesmente MARAVILHOSO! A revista SET aponta esta empreitada como sendo o melhor filme da série. Eu concordo…em partes. Posso dizer que vi praticamente todos os dez filmes do cara (acho que deve ter ficado faltando algum entre o 3 e 7), e digo que o primeiro e o segundo são bem legais. Funcionam perfeitamente como ótimos filmes de terror.
No entanto, da terceira parte em diante, alguma coisa começou a dar errado. Os clichês eram tantos e tão furados que ninguém mais engolia aquela bobagem de acampamento adolescente dos anos 80 às margens do Crystal Lake. Foram chegando os anos 90 e a coisa foi ficando pior: embora os diretores quisessem brincar com o gênero, incluindo no filme piadas que satirizavam os próprios filmes do Jason, a coisa não estava combinando. Os diretores e produtores ainda se levavam a sério demais. O que o diretor James Isaac faz com Jason X é exatamente escrachar de vez. Parar de levar os filmes do maníaco da máscara de hóquei a sério, saltando diretamente do terror para o "terrir".
Na verdade, se a New Line ainda pretende continuar dando vida ao personagem em novas continuações (e vai fazê-lo, não duvide), este é o caminho. Parar de levar Jason Vorhees tão a sério. Porque ele simplesmente não cola mais como aquele assassino sanguinolento. É exatamente o caso do boneco Chucky na série Brinquedo Assassino. O mundo mudou. A audiência mudou. Os monstros que tiram o sono dos adolescentes nos dias de hoje não são mais os mesmos. Em A Noiva do Chucky, a coisa muda de figura. Não é um filme de terror. Mas uma comédia escrachada que resolve tirar um barato com os próprios filmes do Chucky. É isso que rola na nova aventura de Jason.
Jason X é assumidamente horrível. As atuações são péssimas, os cenários são pobres (parecem ter sido reaproveitados de um seriado ruim sobre naves espaciais), os efeitos especiais estão sofríveis… No entanto, as referências para os fãs da série (e dos filmes de terror, em geral) rolarem de rir estão todas lá. E, por mais estranho que pareça, em algum momento você acaba torcendo para que Jason vença e saia vitorioso da trama. No final, ele acaba virando o nosso grande herói! Eu mesmo me peguei, aos risos, aplaudindo aquele que seria o vilão do filme. Esta é a fórmula que talvez transforme Jason X numa diversão para desopilar o fígado.
A história, completamente insólita, é a seguinte: nos dias de hoje, os altos escalões do governo estão divididos sobre o destino do serial killer Jason Vorhees, mantido em animação suspensa. Alguns querem dar cabo dele para sempre, outros querem estudá-lo para aprender mais sobre suas espantosas habilidades de recuperação física. No final das contas, o mascarado se solta, causa um verdadeiro rebuliço numa base militar e só é detido quando a jovem Rowan (Lexa Doig) o tranca numa câmara criogênica. No entanto, um acidente acaba fazendo a moça ser congelada junto com ele. Passam-se 400 anos. E finalmente, em 2455, uma equipe de estudos vem à Terra, agora um verdadeiro deserto radioativo, e encontra os dois. O professor Lowe (Jonathan Potts), líder da equipe, ao descobrir a identidade do assassino, resolve levá-lo a bordo para tentar vendê-lo. Como era de se esperar, Jason volta inexplicavamente à vida, e começa uma verdadeira matança dentro de uma nave espacial. Ele, armado somente de um facão enferrujado, dá cabo de toda uma equipe de segurança armada até os dentes. Cabe agora aos inexperientes estudantes a bordo, liderados por Rowan, tentar deter a máquina de matar mascarada.
Caso você se lembre do nono filme, o pavoroso Jason Vai Para o Inferno, simplesmente esqueça. Por sinal, é o que parece ter acontecido aqui: o roteirista de Jason X simplesmente ignorou o filme anterior, que cria uma teoria absurda a respeito da imortalidade de Jason (ele seria uma espécie de entidade-espírito-ruim que se transfere de corpo para corpo), criando uma história que parece ter partido diretamente do oitavo filme, quando o maníaco finalmente sai de Crystal Lake e vai para Nova York.
As meninas semi-nuas estão lá. A cena de sexo gratuito seguidas de mutilação também está lá. E até as raparigas a la anos 80 em sacos de dormir dão as caras, naquela que é simplesmente a sequência mais hilária de toda a história. Tem até a clássica musiquinha do Jason: Ti-ti-ti-ti-ti-ah-ah-ah-ah-ah…Cara: o que você quer mais? 🙂 Quer um filme de terror de verdade? Espere Os Outros sair em vídeo. Finalizando: deixe seu cérebro desligado durante algumas horas e vá ao cinema dar o benefício da dúvida ao simpático Jason. Diversão garantida…ou o seu sangue de volta.
FATO BIZARRO: O velho militar que aparece logo no começo do filme é ninguém menos que o diretor David Cronnenberg (de "A Mosca" e "Crash: Estranhos Prazeres"). Ele não fica nem cinco minutos na tela! Isso é que é uma participação especial insólita.
Jason X. EUA, 2001. Dir. James Isaac. Com Kane Hodder, Lexa Doig, Lisa Ryder, Chuck Campbell, Jonathan Potts, Peter Mensah
|