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Em 1978, o diretor Richard Donner nos fez acreditar que o homem podia voar com "Superman", sem sombra de dúvida a melhor adaptação de um gibi de super-herói para o mundo do cinema… até agora. Isso porque o diretor Sam Raimi tirou da cartola um filme com todas as características de uma história clássica do mundo das HQs: "Homem-Aranha" (Spider-Man), o aguardado filme que nos faz acreditar que o homem pode subir pelas paredes de verdade. A comparação com a primeira película do Homem-de-Aço é simplesmente inevitável, já que os dois filmes são igualmente emocionantes. Tudo bem, eu sou suspeito para dizer isso, já que sou fã do Aranha há bons 12 anos, mas fiquei tão embargado ao ver aquele sujeito se balançando pela cidade de Nova York quanto fiquei, ainda criança, ao presenciar aquele moço de capa vermelha voando pelos céus de Metrópolis. E admito: depois de esperar tanto tempo para ver, na tela grande, o herói cuja vida eu acompanho desde que me entendo por gente… eu chorei. De verdade. Exatamente como uma criança.
Tanto se falou que James Cameron seria o diretor do filme do Aranha que, quando Sam Raimi foi confirmado como o verdadeiro líder do projeto, eu fiquei aliviado. Afinal de contas, quem assistiu "Darkman" (1990) sabe que Raimi entende perfeitamente como tranpor a linguagem dos quadrinhos para a telona. Ele parece ter seguido à risca a receita do cineasta nerdmaster Kevin Smith que, quando perguntado como dirigiria um filme do Aranha, respondeu somente: "Back to basics" – a volta às raízes, evitando tramas mirabolantes e se atendo às características elementares do personagens. Raimi faz isso perfeitamente: todos os personagens carregam boa parte das características dos originais, sem parecerem forçados demais ou mesmo infantilóides como nos dois últimos filmes do Batman (ambos de Joel Schumacher). A bela Mary Jane, por exemplo, é muito mais tridimensional do que se imaginava nos primeiros trailers: ao invés de ser simplesmente uma menina bonita, Raimi bebeu direto na fonte e fez da personagem de Kirsten Dunst uma garota com uma série de problemas em casa graças ao pai alcóolatra e lutando pelo sonho de tornar-se atriz.
O timing do filme é perfeito: as coisas acontecem devagar, você é apresentado com calma aos personagens e tem tempo até para sentir o quanto a figura do Tio Ben era importante para o jovem Peter Parker. A história alterna momentos emocionantes e outros muitíssimo divertidos – como a sequência na qual Peter Parker (Tobey Maguire) começa a descobrir seus poderes e experimenta lançar a teia orgânica de seu pulso. Por sinal, o jovem Maguire mostra a que veio com uma interpretação belíssima: dono de um olhar inocente e deslumbrado, ele encarna perfeitamente o menino cheio de traumas que tem que crescer de uma hora para a outra depois de uma tragédia familiar.
As interpretações, muito competentes, têm dois grandes destaques. O primeiro deles, o J.Jonah Jameson de J.K.Simmons, tem uma participação pequena no filme – mas irrepreensível. Ranzinza e egocêntrico na medida certa para se tornar o mala-sem-alça que nós amamos odiar. Já o enlouquecido Norman Osborn de Willem Dafoe vai fundo na divisão de personalidade que ele sofre depois de um acidente no seu laboratório, ao testar certas aplicações militares. E surge um outro Norman, o Duende Verde, cínico, inescrupuloso, sedento de poder. Na cena em que estes dois homens, duas faces da mesma moeda, discutem diante do espelho, Dafoe revela porque é um dos atores mais premiados de sua geração. Assustador… para dizer o mínimo.
A história é básica, para quem não conhece: Peter Parker, um jovem órfão criado pelos tios Ben e May, é o ‘natural born loser’ da escola na qual estuda. Fotógrafo do jornal estudantil e eternamente apaixonado pela mesma garota (que não sabe que ele existe), é o alvo dos valentões de plantão. No entanto, tudo muda quando, em visita a um laboratório que faz experimentos com insetos, ele é picado por um espécime fugitivo: uma aranha. Dias depois, o garoto começa a manifestar maravilhosos poderes, como força e agilidade acima do comum, a habilidade de escalar paredes e uma espécie de sentido extra-sensorial, o "sentido de aranha". A vida de Parker muda completamente quando, depois de um ato de egoísmo, ele acaba deixando um bandido escapar…apenas para descobrir que este mesmo marginal mataria seu Tio Ben horas mais tarde. É quando o mantra que ele vivia repetindo ao sobrinho começa a fazer sentido: com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. A partir de então, ele jura dedicar-se a evitar que a mesma coisa aconteça com outros garotos como ele. Em seu caminho, ele acaba encontrando um maníaco mascarado apelidado de Duende Verde – na verdade, o industrial Norman Osborn, pai de seu melhor amigo, Harry (James Franco).
:: Dos gibis para a tela: o que mudou?
Quase nada, se era essa a sua preocupação. E as mudanças perceptíveis são providenciais. A gente cita quatro delas, pivotais:
1) Mary Jane se torna vizinha de Peter, morando na casa ao lado com os pais problemáticos. A idéia de retirar a Tia Anna e a situação tipo "encontro às cegas" na qual os dois foram apresentados nos gibis foi ótima. Afinal, seria uma história longa demais para contar. No filme, Gwen Stacy não existe e Peter é apaixonado por M.J. desde que era criança. Cria-se uma relação mais simples e direta – não vamos esquecer que quem nunca leu um gibi do Aranha também pode querer ver o filme, né?
2) A aranha que pica Peter no laboratório não é irradiada por radiação, como na primeira versão de sua origem nos gibis. Aqui, o animalzinho é modificado geneticamente – seu DNA é um cruzamento das principais características de diversas espécies de aranhas, o que explicaria as múltiplas habilidades de Peter. Lembra claramente a origem do "Ultimate Spider-Man", releitura do aracnídeo para o século XXI que a Marvel lançou no ano passado. Detalhe: a aranha é meio azulada com detalhes em vermelho, o que dá a idéia das cores do uniforme para Peter.
3) Um dos detalhes mais controvertidos do filme, os lançadores de teia não existem mesmo: a teia é orgânica e ponto final. Aqueles protótipos que ele usaria para controlar a teia orgânica acabaram ficando de fora. O diretor Raimi acha muito forçado o fato de que um jovem suburbano teria desenvolvido, usando os instrumentos que guardava no porão, uma substância adesiva mais poderosa que qualquer coisa que a 3M já poderia ter feito. Mas, por incrível que pareça, este detalhe não influencia em nada. E faz um puta sentido, já que, por mais que o Peter do filme seja um CDF, um cientista, um gênio na escola, a faceta "inventor" dele não é tão explorada. A teia está ótima, com a densidade, a textura e a leveza certas para dar a impressão de ser produzida por uma aranha gigante. Some-se a tudo isso a explicação nº 2 e voilá: você tem motivos de sobra pra desencanar deste detalhe e curtir o filme.
4) A morte do Tio Ben tem uma abordagem ligeiramente diferente, o que tornou a sequência ainda mais dramática. Preocupado com a mudança de comportamento do sobrinho, Ben se oferece para levá-lo de carro à biblioteca para onde ele estava indo – esta seria a oportunidade perfeita para uma conversa franca. Num papo sobre poder e responsabilidade, Peter se exalta e discute com o tio, saindo um tanto puto da vida do carro. Na verdade, ele estava indo para o torneio de luta livre, onde vai tentar tirar uma grana para comprar um carrinho usado para impressionar Mary Jane. Ele vence, ganha o dinheiro e, na saída, acaba deixando um assaltante fugir, pensando "Eu não tenho nada a ver com isso". Depois de se trocar, ele volta ao local onde o tio o deixara para encontrá-lo novamente – tinha combinado de buscar o sobrinho. Mas tudo que encontra é uma multidão em volta de um velho senhor caído no chão: Ben Parker. O tio de Peter fora baleado pelo ladrão, que queria roubar o carro. Nos gibis, o ladrão, perseguido pela polícia, tenta se refugiar na casa dos Parker e, num desentendimento com Ben, acaba baleando o coitado.
:: "Cacete! Você não viu nenhum defeito?"
Na verdade… sim. Basicamente o CGI (Computer Generated Image). Em alguns momentos (nào em todos, leia-se bem), dá pra sacar claramente que não se trata de um humano subindo esta ou aquela parede, mas sim um modelo construído totalmente por computador. Não é nada completamente tosco e descarado, pelamordedeus. Mas com um pouquinho de atenção dá pra perceber com clareza. Como o Fanboy sugeriu, talvez resolvesse criar modelos em computação gráfica a partir de pessoas reais, como foi feito em "Final Fantasy": captação e movimentos, uma espécie de rotoscopia digital. Mas…sejamos sinceros: isso é coisa para perfeccionistas. Não estraga em absolutamente nada a diversão do filme. E se a tecnologia peca por um lado, acerta foderosamente em outro: a primeira vez que o sentido de aranha se manifesta é digna de aplausos. A câmera, rotacionando ao redor de Peter, vai isolando alguns elementos que poderiam ser a causa do perigo, mostrando que o sentido dá a ele uma espécie de visão periférica ampliada. Só vendo para crer o quanto é lesgaus.
Em resumo: divertido, emocionante, empolgante…perfeito. Este é o "Homem-Aranha" de Sam Raimi. Nada mais, nada menos que uma história clássica do herói, com um cheirinho daquelas escritas por Stan Lee e Steve Ditko na década de 60. Na medida certa para satisfazer os fãs mais sedentos e divertir aqueles que só conhecem o Aranha dos desenhos exibidos na FOX Kids.
:: Um festival de referências! 🙂
É claro que um diretor experimentado como Sam Raimi, fã declarado do herói aracnídeo, não poderia evitar colocar na trama alguns pequenos detalhes que só os fãs mais atentos vão captar e que se tornam uma espécie de "molho especial" na degustação do filme. A obrigatória aparição especial de Stan Lee, que deveria ser muito maior, acabou cortada na ilha de edição – tornando-se uma pequena cena de menos de 15 segundos. Portanto, fique de olhos bem abertos para não perder o velhinho de vista na cena da luta entre o Duende Verde e o Homem-Aranha em Times Square (para quem tem boa memória, a primeira aparição do Duende nos gibis também acontece neste local).
No Clarim Diário, aparecem dois personagens cujos nomes não são citados, mas fica claro de quem se tratam: Betty Brant (secretária do jornal e primeira namorada de Peter) e Joe "Robbie" Robertson (o segundo em comando no Clarim). Se você tiver alguma dúvida de que são eles mesmos, basta esperar os créditos finais. Ah, tem outro personagem clássico dos gibis do Aranha que também dá as caras, só que no laboratório da Oscorp: o Dr. Mendel Stromm, cientista que Osborn mata friamente assim que se torna o Duende Verde…e que anos mais tarde volta do túmulo e se transforma no vilão Mestre dos Robôs.
Quem costuma acessar A ARCA com frequência já sabe que o segundo filme do aracnídeo já foi confirmado. E Sam Raimi deixa no ar algumas pequenas pistas de quem poderiam ser os vilões nesta sequência. Quando Jameson cita um certo "Eddie", possivelmente ele está se referindo ao também jornalista Eddie Brock, que se junta ao simbionte alienígena para formar o sanguinário Venom. Já o "Dr.Connors" que Peter cita em outra cena é, com certeza, o cientista Curt Connors, atormentado pelo fardo de carregar uma outra personalidade monstruosa, o Lagarto.
Além, é claro, de um pequeno "gancho" no desfecho do filme que, para quem acompanha os gibis, pode significar muita coisa. E por falar no final… eu garanto que vocês vão vibrar ao perceber que a citação à história da morte de Gwen Stacy vai além da já famosa cena da ponte que vemos no trailer. Simplesmente ducaralho, é tudo que tenho a dizer para não estragar a surpresa.
DESAFIO: Ao lado de Rob Tapert, Sam Raimi foi o produtor executivo do seriado "Xena: A Princesa Guerreira". A todos que tiverem oportunidade de ver o filme do Cabeça-de-Teia, fica aqui lançado o desafio d’A ARCA: tentem descobrir onde diabos a atriz Lucy Lawless, estrela de "Xena", dá as caras na película. Nem eu acreditei quando vi! 🙂
Spider-Man. EUA/2002. Dir. Sam Raimi. Com Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Willem Dafoe, James Franco, Cliff Robertson, Rosemary Harris, J.K.Simmons
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