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Artigo adicionado em 16/10/2002, às 11:21

CAVALEIRO DAS TREVAS 2: A CONTINUAÇÃO DE UM CLÁSSICO
Anarquia, luta de classes, subversão…e um monte de caras em uniformes colantes Capa da primeira edição de "O Cavaleiro das Trevas 2" Tão aguardada quanto comentada, tão esperada quanto criticada. "Em um clássico como este não se mexe – imagine fazer uma continuação de ‘Cidadão Kane’, por exemplo", diziam alguns críticos (eu me incluo). O […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

Será que não tem um sobradinho pra alugar em Gotham? Aquela cidade sim está realmente segura contra o crime

Capa da primeira edição de "O Cavaleiro das Trevas 2"

Tão aguardada quanto comentada, tão esperada quanto criticada. "Em um clássico como este não se mexe – imagine fazer uma continuação de ‘Cidadão Kane’, por exemplo", diziam alguns críticos (eu me incluo). O fato é que finalmente chega ao Brasil a primeira edição de "O Cavaleiro das Trevas 2" (The Dark Knight Strikes Again, chamada carinhosamente pelos gringos de DK2), a sequência da aplaudida mini-série de Frank Miller e Lynn Varley, de 86. Com o primeiro "Cavaleiro das Trevas", Miller mudou para sempre a forma como os roteiristas vindouros passaram a enxergar os quadrinhos de super-heróis. Com este "Cavaleiro das Trevas 2", é muito provável que ele não consiga repetir o feito…mas realmente seria ótimo se o fizesse.

Antes de tudo, um aviso aos leitores mais jovens: esta é uma continuação DIRETA de "O Cavaleiro das Trevas", série lançada, repito, em 1986. Significa que muitas das alterações significativas da cronologia da DC Comics não têm efeito nesta história. É o caso, por exemplo, da morte de Barry Allen (em Crise nas Infinitas Terras) e da transformação de Hal Jordan em Parallax (e sua subsequente substituição por Kyle Rainer).

DK2 (tá aí, gostei, mais simples e mais fácil) é um verdadeiro ode aos heróis da velha guarda. Na figura de um Jimmy Olsen envelhecido (que, no entanto, veste a mesma gravatinha borboleta das aventuras do Super dos anos 50), Frank Miller lembra de uma época na qual "homens e mulheres com dons extraordinários (…) desafiavam a tirania, derrotando-a a todo momento. (…) Onde estão nossos heróis?". Em plena década de 90, a pergunta de Olsen vem bem a calhar: os heróis de hoje são super-fortes, musculosos até as gengivas, ultra-violentos, alguns até mais perigosos que os vilões que enfrentam. Esta é a principal metáfora do autor – o que aconteceu com os heróis de outrora? A história se passa três anos depois da suposta morte de Batman ao final de "Cavaleiro das Trevas". Escondido nas sombras, ele treinou sua aprendiz, Carrie Kelly, e os remanescentes das gangues que ele mesmo derrotou. E formou um exército. O mundo decaiu numa paz e harmonia forjadas por um estado ditatorial, regido a mão de ferro por homens inescrupulosos como Lex Luthor. Bruce Wayne sabe que esta sociedade perfeita é falsa. E vai voltar para libertar o mundo.

Que gatinha, hein? Hahahahaha, como eu sou engraçado, quase morro de rir comigo mesmo!

A jovem Carrie Kelly, que nesta edição larga o manto de Robin para se tornar a Catgirl

No entanto, o maior dos heróis, o Super-Homem, ainda trabalha para o governo. E o conflito ideológico entre ele e o Homem-Morcego fica cada vez mais evidente. Descobrimos que a Mulher-Maravilha e o Capitão Marvel, outros dois semi-deuses, também estão sob o jugo dos poderosos, fazendo seu jogo, com medo de desafiá-los e ferir mais inocentes. Mas Batman não tem medo. E sabe que vai precisar de ajuda. Para isso, ele vai libertar e buscar a ajuda de antigos aliados: o Átomo (Ray Palmer), o Flash (Barry Allen) e o Arqueiro Verde (Oliver Queen, agora com um braço biônico, já que na primeira série ele surge sem o braço esquerdo, culpando o Super-Homem pela perda).

Destaque para a aparição do Questão, personagem cujas caixas de texto são todas datilografadas como máquina de escrever, já que o próprio afirma que "não se pode confiar em computadores". Detalhe: embora seja uma delícia ver a visão que Miller tem do futuro decadente dos heróis mais clássicos da DC, creio que aí está seu maior erro em termos de argumento – tentar mostrar todos eles de uma só vez. Acho que esta tarefa deveria ter levado mais tempo, nem que para isso a série devesse ser em quatro edições, não em três. Em alguns momentos, parece que ele está nos sobrecarregando de caras em uniformes colantes.

Fora isso, o roteiro é realmente um tesão. Tem um ritmo legal, tem um timing até que bem balanceado…e tem a velha e boa subversão inaugurada no primeiro "Cavaleiro das Trevas". Isso é o que esta continuação tem de melhor. Batman é um agente do caos, que quer tirar o mundo desta apatia, da aparente sensação de que tudo está perfeito. Ele é o milionário que quer fazer a classe média burra e burguesa acordar para a realidade do planeta, na qual os líderes das nações mais poderosas varrem os problemas e a pobreza pra debaixo do tapete. Não te lembra nada? Talvez uma ditadura militar que se abateu durante muito tempo na cabeça de um país chamado…Brasil? Ou você acha que a euforia pela conquista da Copa de 70 era puro patriotismo? Era sim um patriotismo cego, patrocinado para que o povo olhasse para o outro lado e não visse os pensadores sendo torturados nos porões. Neste sentido, devemos ler não só DK2 como toda a obra de Miller sorvendo cada gota desta anarquia. Quem sabe a gente aprende como mudar as coisas (ou pelo menos começar).

Ainda bem que ele toma um couro logo de primeira

O Super-Homem, ainda trabalhando para o governo ianque

TUDO BEM, TUDO LEGAL, MAS…

…não dá pra negar que o ponto fraco da série é mesmo a arte. Nisso o Frank Miller cagou feio. Quem conhece o trabalho do cara, sabe que o traço dele nunca foi dos mais acadêmicos, vá lá. Mas aqui ele exagera. Em alguns momentos, o narigudo comete erros boçais de anatomia – se ele fosse um sujeito non-sense e experimental como o Bill Sienkiewicz (Elektra Assassina), dava pra entender. Mas ele nunca foi. Juro que não esperava ver os desenhos dele assim. Os originais em preto e branco estão excelentes, muitos deles usando o esquema de luz e sombra de "Sin City", série de Miller na Dark Horse Comics. Basta dar uma olhada na nossa galeria de imagens. Aliás, por falar em cor…este sim é o calcanhar de Aquiles deste DK2. Se Miller tivesse optado pelo P&B, ou mesmo pelo colorido aquarelado da primeira série, muitos dos erros de seu traço seriam perdoáveis – como foram no primeiro "Cavaleiro das Trevas".

Mas a Lynn Varley, esposa de Frank Miller, tinha que aprender a mexer em computadores…Aí é que a casa caiu. Ela usa e abusa de todos os plug-ins mais básicos (e toscos) do Photoshop, o que deixa a arte de Miller, que já não está em seus melhores momentos, muito colorida e modernosa…o que não combina em absoluto com o clima do Batman. Ela alica efeitos de computador em momentos completamente desnecessários, e a coisa começa a se tornar irritante. Tio Miller: convence a patroa a usar nanquim ou aquarela de novo, por favor… Até uma pinturazinha em guache já ajudava…

CONCLUINDO…

…verdade seja dita: fica um enorme gostinho de saudades no ar. Saudades da primeira série de Miller, um verdadeiro divisor de águas no mundo dos gibis. E por mais que se diga que a comparação da continuação com o original é prejudicial e injusta, neste caso é inevitável: a primeira série é infinitamente superior. E ponto final. Tudo bem, nós só tivemos em mãos o primeiro número de DK2. Mas para quem leu o primeiro "Cavaleiro das Trevas", o final do primeiro número significava uma sede sem tamanho pela segunda edição. "Eu quero mais!", gritavam os fãs. Se você não leu, experimente: a Abril vai lançar, em março, a série original condensada em duas edições. Ao final do primeiro número, você vai sentir a diferença. E como vai. De qualquer maneira, DK2 é um excelente material para quem curte quadrinhos de super-heróis, muito acima da média do que temos visto por aí. Embora os fãs mais hardcore do narigudo Frank Miller saibam que ele poderia fazer muito melhor…

:: Veja como foi a festa de lançamento da série em São Vicente/SP
:: Visite nossa galeria de imagens de "O Cavaleiro das Trevas 2"
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