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Artigo adicionado em 30/10/2002, às 11:04

A SEDUÇÃO DOS INOCENTES
Alemão doidão quase queima a reputação dos quadrinhos "Phantom Lady", uma das primeiras vítimas do alemão Sua mãe vive dizendo que você é um traste inútil, que você só sabe ficar lendo gibi o dia inteiro, que um dia ela ainda bota fogo nesta merda toda e te põe pra fora de casa! Tua irmã […]

Por
Thiago "El Cid" Cardim

Dona, seus faróis estão acessos...

"Phantom Lady", uma das primeiras vítimas do alemão

Sua mãe vive dizendo que você é um traste inútil, que você só sabe ficar lendo gibi o dia inteiro, que um dia ela ainda bota fogo nesta merda toda e te põe pra fora de casa! Tua irmã tira todos os teus gibis da ordem cronológica pra poder guardar as revistas dos Backstreet Boys e do Leonardo DiCaprio naquela gavetona do quarto…Teu pai já derramou café na tua edição encadernada do Watchmen, e teu cachorro por pouco não fez xixi na tua caixa de cards importados dos X-Men! ‘Caralho!’, você pensa, puto da vida; ‘mas que perseguição, meu!’. Perseguição? Você tá é reclamando de barriga cheia, caro colega…

Em 1954, um psicólogo alemão que não tinha mais o que fazer, chamado Frederic Wertham (nunca esqueça o nome do cara), lançou um livro chamado ‘Seduction of the Inoccent’ (Sedução dos Inocentes). Até aí, você pergunta : ‘E daí?’

Simples: este livro dizia, com todas as letras, que os quadrinhos eram uma das maiores fontes de delinqüência infantil e juvenil. Trocando em miúdos, o sujeito afirmava que se você lesse uma história do Spawn dando porrada pra cacete e matando um criminoso com suas correntes, possivelmente você ia pegar a corrente da tua bicicleta e matar o teu irmão pentelho! Ah, tenha dó, meu! Só faz isso quem já nasceu com tendência pra ser pirado, ou pira no meio do caminho, tipo o tal do Chico Pereira, o Fanboy…digo, o Motoboy! Não dá pra generalizar, catso!

E a repercussão do livro do cara foi impressionante: várias comissões pela moral e bons costumes começaram a ler gibis de tudo quanto era tipo, e qualquer sinal de sangue, porrada, ou até um perninha de fora ou um decote mais ousado…toma fazer fogueira com as revistas! É, tá pensando, queimaram muito gibi em praça pública! Tinha até gibi acusado de ser comunista (aliás, naquela época todo mundo era acusado de ser comunista)!

Mas o problema é que os caras viam muita coisa onde não tinha, e aí quem dançava era o pessoal das editoras. As que publicavam revistas de terror, então… Quer um exemplo? Olha só as duas imagens abaixo:

Até o Super-Homem, já um grande sucesso na época, sofreu. A DC levou um arrocho pra maneirar nas histórias do Azulão, porque ele podia incentivar as crianças a tentarem saltar da janela pra voar!!! Em junho de 54, meses depois do livro do Wertham sair, os quadrinhos chegaram ao Senado! E semanas depois, começava o julgamento (Tá pensando o quê? Não é Brasil, com processos rolando anos a fio…). Conversa vai, conversa vem, não teve jeito: as editoras americanas acabaram tendo de se juntar e criar o Código de Ética nos Quadrinhos, que era severo pra cacete e tirava muito a liberdade de expressão dos criadores!

Ei, mas aí é que a galera dos gibis ganhou força: o Código rolou durante um tempo, é verdade, mas, a partir da década de 70, o pessoal começou a meio que esquecer que ele existia nos States, afinal. A histeria contra os gibis esfriou, e Frank Miller pôde criar o seu ‘Cavaleiro das Trevas’ em paz! Porque se o Sr.Narigudo Miller tivesse que seguir o Código à risca, a história ia ficar uma bomba, com certeza… Saca só algumas restrições do Código, e vê se alguém ainda liga pra isso hoje em dia:

Quadrinhos do Liefeld? Prefiro a morte!

As editoras de terror sofreram pacas…

1. Em qualquer situação, o bem triunfará sobre o mal, e o criminoso será punido por seus delitos (sei, sei…fala isso pro Coringa!)

2. Mulheres serão desenhadas realisticamente, sem ênfase indevida a qualquer qualidade física (ihhh…esqueceram de avisar a Fairchild…)

3. Ilustração insinuante e obscena ou postura insinuante é inaceitável (e as poses que a Psylocke pára fazendo beicinho?)

4.As letras da palavra crime jamais deverão aparecer consideravelmente maiores do que as outras palavras contidas no título. A palavra crime jamais aparecerá sozinha numa capa. (essa é dose…)

Agora, nas editoras americanas, a regra é assim: liberdade, mas sem exageros! E que a porra do Código se dane! Esta foi a primeira atitude que o tio Joe Quesada tomou quando assumiu a cadeira de editor-chefe da Marvel, por exemplo. E o tal do Wertham, que aconteceu com ele? Caiu no esquecimento…Afinal, com feras como Picasso, Fellini e o Presidente Kennedy dizendo que os quadrinhos eram legais, quem mais ia lembrar do alemão porra louca?

Por isso, é bom você parar de reclamar, porque alguém pode muito bem ter queimado os gibis do teu pai em praça pública…


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