|
Tudo bem, admito que fazer uma adaptação para quadrinhos de um filme baseado num personagem de HQs que você mesmo criou é redundante pra cacete. Imagino só a situação do velhinho Stan Lee, escrevendo uma adaptação da adaptação de uma história que ele escreveu há quarenta anos. Mas, mesmo assim, em "Homem-Aranha: A Adaptação Oficial do Filme", o tiozinho abusa do direito de ser ele mesmo. E como.
Os puritanos já vão se apressar em dizer: "Ah, é um pecado falar assim do homem que é criador de mais da metade do Universo Marvel e blá-blá-blá…". Bullshit. Quem leu qualquer um dos gibis que ele escreveu naquela época, entre os anos 60 e 70, e resolver ler um de seus trabalhos atuais, como as releituras dos principais personagens da DC Comics, vai ter uma decepção. Stan Lee está parado no tempo. Perdeu a capacidade de se renovar. E só consegue escrever variações das histórias que ele mesmo escreveu anos atrás. É assim com a versão em gibi da milionária película dirigida por Sam Raimi.
Em 52 páginas, Lee tenta espremer, sem a menor noção de timing, todas as principais sequências do filme. É óbvio que ele não consegue. E a ação corre de uma forma que parece que tudo acontece tão rápido que com certeza você deve ter perdido alguma coisa no meio do caminho.
Querem um exemplo? A primeira cena na qual aparece o laboratório da Oscorp, quando somos apresentados ao Dr. Mendel Stromm e conhecemos, pela primeira vez, o planador e a armadura que mais tarde Norman Osborn usaria como Duende Verde. Esta sequência é contada em exatos…dois quadrinhos. Quando o Duende surge nitidamente pela primeira vez no Festival da União Mundial, em Times Square, quem não viu o filme se pergunta logo: de onde saiu esta roupa? E nada é dito sobre ela até o final. A cena na qual Peter Parker cria o uniforme de Homem-Aranha também é retirada, o que causa uma sensação muito estranha quando o vemos saltando sobre os bandidos nas páginas seguintes. E o que dizer da história da luta livre? Em nenhum momento Lee deixa claro que o personagem vai enfrentar Bone Saw McGaw (Pra quê diabos eles traduziram o nome para Serra-Ossos se no filme o nome tá em inglês?) tendo em vista comprar um carro para impressionar a vizinha Mary Jane.
O que Sam Raimi acertadamente faz no filme do Aranha é extrair a essência do personagem. O filme não é a tradução literal do número 15 de "Amazing Fantasy" ou mesmo da primeira edição de "Ultimate Spider-Man". É o mesmo, guardadas as devidas proporções, que Peter Jackson faz em "O Senhor dos Anéis", entendendo que são duas mídias completamente diferentes, embora guardem semelhanças, o que pede um tratamento diferenciado. Stan Lee acaba cometendo o mesmo erro que 90% das outras adaptações de filmes para quadrinhos, que tentam enfiar a trama cinematográfica, sem tirar nem pôr, naqueles pobres e inocentes quadrinhos. Se não couber…a gente corta uns blocos aqui, outros ali e tá djóia.
Não tá djóia porra nenhuma. Pra mim, tudo que Lee fez foi pegar a história que ele escreveu em 1962 (cujo timing, me perdoem novamente os puristas, é péssimo…mas adequado para a época) e colocar elementos do filme.
Para não dizer que a revista é 100% ruim, tem duas coisas bacanas:
1) As piadas do Aranha: Tudo bem, Sam Raimi as deixou fora do filme porque ele retrata um Peter Parker ainda inseguro, em começo de carreira, sem firmeza e com medo demais para ser engraçado. Mas no gibi, Lee não se faz de rogado e espalha aquele bom e velho humor aracnídeo que ele mesmo desenvolveu. Bem bacana.
2) A arte do Alan Davis: Sim, isto nós temos que destacar. O inglês tem um estilo de desenho cheio de movimento, leve, ágil, dinâmico e, antes de tudo, muito elegante e limpo. Os traços são puros, delicados, humanos. As expressões faciais e corporais que ele faz são carregadíssimas de sentimento. Simplesmente divino.
Para os fãs mais malucos, como eu, vale por ser artigo de colecionador. Agora, se você não é completamente tarado pelo herói aracnídeo, melhor só pegar emprestada. Ou tirar uma xerox que já tá legaus.
|